24 de Outubro de 2011

FICÇÃO

Sempre que saio com a minha mulher andamos

de mão dada, se a solto foge para as compras

Pesa sobre as mulheres um desígnio divino: vem uma vez por

mês e dura entre 3 a 5 dias, e não é o período, é o salário

Quando se casaram ela até nem se importava que fosse ele a carregar as compras do lugar de hortaliça lá para casa. Mas na aquisição dos pensos femininos era uma desgraça, e com o aparecimento dos telemóveis a coisa piorou. Ligava-lhe frente à prateleira do supermercado, a perguntar-lhe, Do lado direito ou esquerdo, Mas não há ultrafinos, Nem com risca de cor fúcsia.

Já nas fraldas foi sempre a andar com tamanhos minúsculos, que ela depois tinha que trocar, pois ele pensava sempre, face á variedade dos tamanhos, que o valor indicado no pacote seria a capacidade de resíduos. Vai daí na hora da decisão enchia-se de orgulho e alegava que filha dele, a avaliar pelo cheiro, nunca faria menos de 1 quilo. Nem hesitava, tamanho maior, mas insuficiente para o peso da criança.

A pouco e pouco começou a ir com ele, não que precisasse de ajuda, mas porque faltava sempre qualquer coisa essencial e, mesmo com lista ele só comprava porcarias, tal como bolos secos para ele e cola diet para ela, Ele que as bebesse. Quando compraram um carro, ficou dispensado dessas tarefas, porque ela ia quando lhe dava jeito e não quando podiam os dois.

Sabiam de outros acordos entre casais, mas no seu caso ele pagava as despesas fixas e prestações do colégio da filha, do carro, casa, seguros, mobília e eletrodomésticos. O reembolso do IRS pagava as férias. Os subsídios de natal e de férias, repunham acertos.

Ela com o seu ordenado pagava alimentação e o resto era para as suas coisas. Como nunca tivera mesada em criança, gerir uma família passou a ser um desafio nem sempre ganho. O mais difícil era naqueles dias do mês, incomodativos para as mulheres, em que se perdia em compras por roupas e sapatos que depois nunca usava. Porque ao contrário dos que governam o país e exibem os colégios dos filhos, os carros e as férias de luxo, ela tinha vergonha dos gastos exorbitantes praticados nessa altura do mês. Repetia constantemente, Mas onde é que eu tinha a cabeça quando comprei uns sapatos de saltos de agulha vermelhos e uma saia rodada. Nem se dava ao trabalho de responder a si mesma, ao contrário de certa filha que quando contou à mãe que estava grávida, esta perguntou-lhe, Mas onde estavas tu com a cabeça, rapariga:

- No volante.

Culpava o tal período do mês pelos disparates nos rombos do vencimento, mas não resistia. Aquilo era mais forte que ela. Irritava-se quando lho diziam, fossem colegas ou familiares. Dispensava. Já lhe bastava o remorso dela, não era preciso atirarem-lho à cara. Que culpa tinha ela do mecanismo de auto defesa que criara, não diferente decerto do das outras mulheres, que à sua maneira tentam ultrapassar aqueles dias difíceis. Tinha uma prima que nem podiam falar com ela nessas alturas. Umas irritam-se, a outras dá-lhes para as compras como forma de terapia.

Só nos anúncios da televisão à hora de jantar é que “aquilo” é uma maravilha: pode-se saltar, nadar, pedalar, dançar e até andar a cavalo. E depois admiram-se que haja crianças que quando lhes perguntam o que querem ser no futuro, respondam:

- Penso higiénico.

Quando ele lhe mostrava o saldo bancário, defendia-se culpando-o de também ele entrar nas lojas de bicicletas e trazer sempre um saco de plástico com uma merdinha lá dentro, fosse uma barra de cereais, um gel, um pneu, uma câmara-de-ar, um extensor de válvula, etc. Ele nunca sabia como responder quando lhe apontavam o vício que reconhecia possuir, defendia-se que o vício pratica-se, e já que o tinha havia que alimentá-lo.

- Tá bem dizia-lhe ela, um dia deste entras numa loja e pedes um furo, porque remendos já tu tens às dezenas. E continuava, Se um dia encontras uma feira de bicicletas é a tua perdição.

 

publicado por Ubicikrista às 21:46

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