10 de Agosto de 2012

CARISMA

Ao falecido Silvano Gágado, comerciante de bicicletas, instrutor de rodas

28, hábil manuseador do martelo e perito na caraterização de indivíduos

FICÇÃO-o grupo em 1999

Desculpe lá amigo, mas que história é esta de me vir acordar às duas da manhã de um Sábado. O que vale é que eu ainda não estava deitado. O quê disseram-lhe que eu é que era a pessoa indicada para o ajudar, desculpe mas deve haver engano, eu não percebo nada de bicicletas, mas tenho um amigo meu que é que é capaz de saber disso. Eu não, eu limito-me a ler umas revistas que esse meu amigo costuma trazer-me de França, da Alemanha e às vezes de Itália. Sabe, ele é mecânico de Karting, mas agora não está cá foi a uma prova lá fora. Diz-me que não faz mal que quer é falar comigo, mas eu há muito que nem sequer ando de bicicleta, limito-me a folhear essas revistinhas mais O Pedalar que recebo da Federação e o Mundo do Ciclismo. Diz que estou a ser modesto, confesso, pronto desculpe, às vezes também folheio umas dos Americanos. Mas entre, entre e sente-se.  

Disseram-lhe que me chamo Tartaruga, não é bem isso mas deixe lá, quer é saber o que é que eu acho da rapaziada, não é verdade. Eu acho que são todos bons rapazes. Ah, das bicicletas? Mas isso é outra conversa: A melhor não sei, mas há ai umas bens giras. Olhe por exemplo a dum rapaz assim meio calvo, que tem uma Look em alumínio pintada de amarelo, equipada com o 105 da Shimano está muita engraçada, ou a do Provocador que é um rapaz astuto que ainda chegou a ser corredor dos juniores do Redondo aqui há dez anos, que cada vez que lá vai andar com o grupo só quer é esticões e fugas, que tem também uma Look mas em carbono, com umas rodas Mavic Elite. Ai há tempos apareceu aí um que lhe chamam o Sofredor, dizem que é o peso pluma da leveza, possuidor duma Giant Jalabert, com espigão Giant espalmado, com selim Elite, rodas Rolf Vector Pro, avanço em Ahead Set e tudo com Durace, do melhor que há. Mas a maioria tem tudo em alumínio, dessas de tubos largos que estão agora na moda, o Altec. Descobriram para aí um homenzito que lhas monta nas cores que eles querem e lhes põe o nome personalizado...

Um caso curioso é o desse rapaz de barbas, o Rebocador, diz que a bicicleta que mais gosta é sempre aquela que tiver no momento. A primeira custou-lhe 15 contos se não estou em erro, era uma de 55 cm, mas não se podia dizer que fosse uma bicicleta. Para mexer nos manípulos era preciso uma chave de fendas cada vez que pensava em meter uma mudança. Outras vezes quando sonhava em meter uma, já os seus amigos tinham desaparecido na curva seguinte. As bicicletas, para mim, tem que funcionar assim: ainda não temos pensado e já está metida. Como não satisfazia mais do que um passeio por mês meteu-se com uma francesa, não levem a mal, depois teve uma Gios espanhola de Badajoz, mas como é um perfeccionista das medidas, achou que estava grande e comprida em 54. Para rebaixar mais um centímetro optou por um quadro de alumínio, duma marca nacional. E foi vê-lo nela durante 3 meses, que passados, trocou pela actual com menos um centímetro e só 39 nas escoras traseiras, para subir melhor diz ele. A distância é tão curta do pneu ao quadro, que tem que esvaziar a camara de ar para poder meter a roda traseira no sítio. Esta agora que tem é uma 52, com os tubos em Altec 2 Plus, com um avanço ITM Millennium que lhe custou 16 mocas mas vale a pena. O selim é um Selle Italia Elite. O espigão é um Massi negro, mas sei que tinha preferido o prateado a imitar o titânio, mas não lho consegui encontrar, paciência, também já estou a ficar ultrapassado e qualquer dia deixo de dar conselhos. As rodas ainda tem umas CP 14 da Mavic. O volante também é um ITM 260. Nos próximos tempos se mudar será a cor da bicicleta mas mais nada, já me disse que as rodas só mais lá para a frente eu disse-lhe que já agora arranjasse pelo menos uma lá mais para trás.

Como é que ele consegue isto? À custa do tabaco! O quê, acha que é vendedor? Não. Fumava mas já não o faz. Deixou-o no dia em que o gaiato do Sofredor lhe disse que nunca seria ciclista se continuasse a fazê-lo. Recordo-me da sova que levou atrás deles...Mas continuou com a mesada o que lhe permitiu ir amealhando uma quantia considerável todas as semanas. Em vez de queimar os pulmões, esturra a massa na bicicleta mas aumenta gradualmente o património pessoal e decerto lhe dá muito mais prazer que os cigarros. Sabe a mim também me dá mais jeito uns copitos que a porcaria do tabaco. O Rebocador foi esperto, ao reaproveitar as leis da Física á sua maneira: antes evaporava a massa, agora solidifica-a.

Outro que me aparece aí muito é o Sofredor. Sofre por tudo e por nada. Até mete dó vê-lo sofrer. Sofre por ele, pelos outros, pela idade, por já não poder ir atrás dos gaiatos novos. Ele que é ainda a referência de todos os principiantes que por ele se regulam, que ficam todos contentes quando o conseguem acompanhar. Ele que passou a vida a dar bigodes, a fazer gosto em deixar para trás no meio da estrada qualquer pseudo-cicloturista que se atrevesse a ir com o grupo. Ele, nunca o disse, mas deixa no ar a ideia que se não aprenderem a sofrer mais vale irem para casa jogar às damas - atenção que não é jogar-se às damas. Ciclistas é que não serão decerto. Ou aprendem a penar ou nada feito. Claro que os mais persistentes vão ficando. Foi assim que ele formou o grupo à base de sovas consecutivas no pessoal. É o mesmo que no meu tempo quando, na escola, se aprendia a tabuada à força das reguadas. É claro que isto só resulta enquanto se tem progressão, depois chega-se a um patamar e estabiliza-se e sabe-se a posição que se ocupa no grupo nas chegadas e quais os que se podem deixar para trás ou não. Para se continuar a progredir será preciso treinar muito mais, ambicionar mais, etc, e isso já depende de cada um. Eu já vi de tudo. Novos conformados e com pouca ambição e velhos manientos até mais não, quando já mal podem com uma gata pelo rabo ou com a barriga. No fundo sempre que podem, no verão, aí vão eles para a estrada tentando fazer kms para ganharem endurance que lhes permita resistir mais tempo aos ataques dos melhores. Pura ilusão, os outros também treinam mais ou não fosse o verão para todos.

Mas oiça eu sei que eles só treinam para ganharem mais confiança, porque sabem que quantas mais horas passarem em cima da bicicleta melhor se sentirão. Não querem saber se aquele é o melhor treino ou não, se fazem series, contra-relógio ou não. Fazem os dois treinitos de 30 kms duas vezes por semana antes que anoiteça e ficam todos contentes.

Mas o Sofredor é de uma fibra especial! Quer ver o que aconteceu recentemente? Num desses passeios que alguns fazem para o Algarve em dois dias, demorou a sair do carro de apoio, que conduzem à vez, e atrasou-se, meteu o andamento aconselhado e lá marchou tentando dar caça ao grupo sem forçar. Às tantas apareceu-lhe um fulano principiante ali de Beja que andava a fazer cicloturismo e se colou a ele pensando que ele era um dos do grupo da zona. Só que o maroto viu naquela alma penada a possibilidade de fazer o que tanto gosta. Começou a puxar a sério. O desconhecido colou-se-lhe à roda. Tentou tudo mas o outro não descolava. Como não o conseguia bater pela força tentou pela palavra e meteu conversa. Pode então observar com atenção o aspecto e a bicicleta do cavalheiro e explicar-se que não era ali daquela zona e a razão da sua passagem. Imediatamente o companheiro fez marcha atrás e procurou outras paragens. Desta vez o tiro saíra-lhe pela culatra e estava-lhe atravessado na goela não ter conseguido descolar o sujeito. Mas como não tem vergonha descoseu-se e contou o sucedido mais tarde ao jantar ao ciclista do bigode e acrescentou cheio de conformismo e à laia de remate final vingativo:

- E o gajo vinha num chaveco qualquer, daqueles ainda com umas mudanças de arreata.

Só que o confidente, o tal ciclista do bigode, ainda pouco entrosado nesta linguagem do ciclismo tentou passar o facto e vá de dizer que o Sofredor não tinha conseguido despachar um com uma bicicleta que tinha umas arreatas – calculou ele - a servir de travão. Houve gargalhada geral pela adjectivação. A partir daqui todos aqueles do grupo que não tinham as mudanças nas manetes, conhecidas como ergo-power ou indexadas, passaram a ser conhecidos como os Arreatas, e como já todos se tinham actualizado, menos ele, assenhoraram-no da alcunha.

Dos outros rapazes o que lhe posso dizer é que o Resguardo é um sprinter nato. Quando o deixam chegar às zonas que ele tem marcadas como referência é inalcançável. É bem o exemplo de que quem queira sprintar, não pode andar a puxar na frente ou a marcar andamento. Poupa-se tanto que às vezes chega a ser embaraçoso para ele. Protege-se o tempo todo. Até já me disseram que os companheiros chegam a acreditar que no meio do percurso se sinta mesmo mal e não tenha condições para ir à frente dar uma ajuda mas desconfiam, e da fama de andar na mama ninguém o livra. Julgo que se trata de um hábito ele andar sempre na cauda do pelotão. Como já caiu tantas vezes, principalmente nas cicloturísticas, que vai sempre lá para trás talvez com receio. O que é, aparentemente, uma contradição porque um sprinter não pode ter medo. Sabe, deve ser das coisas mais perigosas, deixe-me dizer. Mas se para a maioria o é, para quem o pratica até nem por isso é perigoso, e talvez tenha qualquer coisa de mágico. Não obstante, tem a nobreza de, mesmo na parte final, nunca passar quem puxou, a menos que outros o façam e então aí vai-se a eles que nem gato a bofes.

Há por aí outro que lhe puseram o Fala-Fala que está sempre a meter a colher. Protesta por tudo e por nada. Só se cala quando já não tem forças. Fraqueja, como quase todos, nas subidas, mas se esperarem por ele pode ser de grande ajuda no plano ou a descer. È capaz de dar o litro em 100 ou 200 metros e depois ficar-se. Pouco vez raciona as forças, mas enquanto as tem, dá o que pode.

O Gordinho é o estratega do grupo. A experiência de ter corrido em júnior garante-lhe uma leitura antecipada do que os adversários poderão fazer. Antes de se retirar para as bicicletas de montanha chegava a fugir e isolar-se mesmo quando já não tinha forças, enganando assim os companheiros da rota. Controla essa distância e depois é só manter. Arranja aliados e inimigos em qualquer situação de corrida, é o táctico por excelência.

O Provocador é o terrível. Não dá descanso a ninguém. Sempre pronto para dar gás. Desencadeia hostilidades a toda a hora. È capaz de tentar duas e três fugas consecutivas para ver se pega e dá-se ao luxo de escolher a companhia de fuga que mais lhe agrada. É uma pena treinar pouco e poucas vezes aparecer. Felizmente para alguns, digo-lhe eu!

Mas o mais catita é o Ultimo Guerreiro, é outro expert em táctica, só que num estilo mais sofisticado. Distrai os adversários com conversa sobre um tema qualquer de momento, e quando estes se apercebem, já os outros vão a milhas, ficando assim com companhia mais tempo. Para ele cicloturismo é ir a uma terreola qualquer nas proximidades e bater um branquinho com um pastelito de bacalhau ou se não houver com dois carapaus. 

Ah! Já me esquecia de um que anda arredado aqui da porta quase nunca me pede conselho. Parece que um dia, depois de andar meia dúzia de quilómetros em paralelos, ao chegar a casa, viu que tinha o quadro de aço partido, um Colombus Allen, aproveitou as componentes e montou-as numa Trek monobloco de carbono. Posteriormente foi mobilando a casa à sua maneira, com pedais, veja lá, que pesam 238 gr o par, um pedaleiro Speedlight triplo, meteu por baixo de tudo isto umas rodas Vector da Rolf e recentemente parece que conseguiu o último grito da Mavic com mudanças por transmissor e não o habitual por cabos. Já me disseram que ainda que quer comprar aquela pedaleira revolucionaria do Rotor. Explicaram-me mas eu não acredito, parece que tem montado um cranque maior que outro – sobre uma engrenagem como os relógios - e rende para aí em 20% mais ao pedalar. Disseram-me que viu aquilo numa feira de bicicletas em Itália há dois anos e daí para cá nunca mais lhe saiu da cabeça. A ser verdade, esta tecnologia é bem pensada, pois o sonho de qualquer ciclista é andar sempre mais.

O Fugitivo é que se ri disto tudo, face a tanta compra desenfreada de novos quadros, ele que está renitente em adquirir outro, costuma intrometer-se com desprezo,

- Quando aparecer com motor eu compro.

Estes mais velhos nem sempre ligam às novas tecnologias e quando já estão satisfeitos com o material que possuem, ouvem os outros a falar disto e daquilo, que saiu ou vai sair, atiram-lhes impiedosamente com a realidade, sabendo que as canetas - las gambias para os italianos - é que contam.

 - E pernas novas, onde é que se podem comprar?

Já o Linha de Montagem é um rapaz que também pouco aparece e anda há vários anos a compor o boneco. Começou por comprar um quadro destes novos de aluminio que todos usam, mas que só o acaba de montar e estrear quando tiver as novas rodas Nucleon e o Chorus da Shimano de 10 mudanças. 

- Mas ouça, não se preocupe com o que lhe contei. Se quer começar, avance, que depois de levar umas boas sovas fica um artista de primeira, capaz de ombrear à partida com qualquer um destes rapazes cicloturistas.

publicado por Ubicikrista às 22:59

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