01 de Outubro de 2009

Volta a Astúrias: “Se fazes caso do médico dás positivo”

Na Volta às Astúrias tivemos logo problemas, porque o responsável médico da altura dizia que se podia utilizar determinada substancia e o outro médico dizia que não. Não era um produto como o que depois se usou no Tour, mas desde esse momento acabou por se saber a verdade, de que não devia utilizar-se. O caso a que me refiro aconteceu mais à frente, com todos os companheiros, mas podia ter calhado só a um, porque como sabem os controles fazem-se ao calhas. Um médico dizia uma coisa, outro médico dizia outra e então o diretor aceitou a opinião do médico responsável. Depois veio-se a saber que não se podia usar esse tratamento, mas como o que disse que sim era o médico chefe, passou-se o que se passou.

Então nós os corredores tivemos com eles uma reunião, mas o diretor continuou a apoiar o médico que liderava e tivemos uma discussão. Ficámos entre a espada e a parede. Fazes caso de quem, de um médico ou do outro? Fazes caso de um médico e não andas ou fazes caso do outro e dás positivo? Vamos ver. Eu fiquei-me com a opinião do segundo médico, porque mais vale às vezes não dar positivo, embora haja quem diga que eu me automedicava, contudo nunca dei positivo. Eu tinha umas ampolas e tudo o resto para continuar com este tratamento, mas optei por deixá-lo.

Nacionais de Madrid: “O gás bus é o Actovegin”

Nos Campeonatos de Espanha em Madrid tivemos outra discussão, mas não por doping. Neste tipo de provas já se utilizam coisas que não dão positivo. São produtos partidos, quer dizer, que se metes uma ampola inteira dá-te positivo, mas se a repartes por cinco não dás. Os controles não são muito eficazes, porque há produtos que não se detetam ou apenas se detetam a partir de um valor a que não chegas.

O Campeonato de contrarrelógio era numa sexta na Casa de Campo, e na estrada M-30 era hora de ponta. Aconteceu que a minha bicicleta ia no carro da frente, mas no que eu viajava estava a bici de outro colega. Tive que tirar a bicicleta do carro e discutir com os polícias para que me deixassem passar. Levei a bici do meu companheiro à rampa de partida e fui para o autocarro fazer os preparativos para o meu crono: cafeína injetada, ácido lático, bicarbonato e pouco mais, ainda que às vezes se possa também usar o Actovegin, que nos meandros se chama gás bus. Não sei se serão ampolas de 10 ml, de 500... Costumam ser de 10 ou de 5.

Preparação para o Tour: “Pacote de sangue de meio litro”

Nessa mesma noite de domingo descemos até Valência para uma consulta para que se extraíssem os pacotes de sangue. Utiliza-se depois um pacote para o Tour e outro quando já tenha começado a corrida. Extrai-se um litro de sangue repartido por dois pacotes de meio litro. Uma coisa que eu não achei normal é deixar os pacotes numa bandeja de plástico sem os marcar, quando sabes que a seguir vais extrair sangue a mais pessoas. O primeiro  a fazer é marcá-los e metê-los num banco de sangue, porque deve ficar numa refrigeradora.

Nós os ciclistas não somos cães, somos pessoas e temos direito a ser tratados como tal. Não me pareceu normal este procedimento. Não se pode deixar um pacote antes de um Tour num sítio em que está um calor que mal se aguenta. Depois também a forma: que se faça um nó no saco e se deixe assim! Mais tarde é que me inteirei de que se tem que fazer testes cruzados para ver se é o teu sangue quando o fores repor. Senão, até podem trocar o meu saco com o de Pepito Flores, porque eu não sei onde é que esteve guardado.

Bom, isso foi na terça, porque segunda, o médico não apareceu. Pois a mim, depois de me tirarem dois pacotes na mesma quarta-feira em que viajávamos, fizeram-me a transfusão de um deles. Isto não faz nenhum sentido. Em lugar de tirarem só meio litro, sacaram-me um litro por equívoco ou o que quer que fosse... Bom, o outro meio litro guardaram-no para o Tour de França, porque depois, a meio do Tour, quando já tiveres um abaixamento de forma, voltam-to a meter.

A meio do Tour, a recuperação era normal. Estávamos utilizando poucas coisas de inicio, porque se supõe que tu chegas já com uns tratamentos que têm que durar uma primeira semana ou uma semana e pouco. Foi assim  que chegou a sétima etapa, a tal onde perdi o conhecimento. Vou contar porquê. Era a primeira etapa de montanha e pela manhã experimentámos uma substancia que eu nunca tinha provado. Essa substancia toma-se de acordo com o teu peso. Mete-se na veia e a única coisa que tens de fazer é saberes que tens o hematócrito baixo, mas a hemoglobina alta.

Ah!, uma coisa que me esquecia. No inicio do Tour, todos nós corredores temos que pôr uma certa quantia de dinheiro para se guardar a medicação. Eu pus 3.000 euros e suponho que os outros também, mas não posso confirmar. De certeza que todos puseram, apesar de alguns terem salários de miséria.

Tour de França: “Um porquinho de dinheiro para a pomba”

Este porquinho é para que se guardem os medicamentos. Ficas a saber de que a lei francesa não é como a espanhola. É uma lei diferente, na qual, posso dizer até que se levas uma caixa de vitaminas B12, que seria legal em Espanha, ali não a podes levar. Então há pessoas que se dedicam a guardar esses medicamentos para que tu não os tenhas contigo. Os medicamentos para a recuperação podes comprá-los lá e até outras coisas, mas há outros que não se podem porque são DH, de uso hospitalar.

No sei se o levaram num carro ou num avião, mas, pelo que tenho entendido, transportaram-no num carro de alguém próximo da equipa. Nos meandros, a pessoa que leva a medicação chamamos-lhe a pomba mensageira, mesmo que a pomba, seguramente que não possa com tanta carga. Isto é como importar uma coisa qualquer, o que se passa e que isto é considerado um delito. E depois dizem que eu sou o camelo de pó branco. Isto sim é que é tráfico de drogas e contra a saúde pública.

Por suposto, que esse dinheiro não o recuperas se abandonares a prova, aqui não se devolve nada. Recordo-me do diretor passar pelos quartos e eu ter sido dos últimos que lho dei. Ia dizendo o senhor que lhe déssemos a limosna, percebes? Limosna (picão)! No final do Tour ganhámos 811 euros em prémios, perdemos dinheiro. E assim voltamos ao que estava a contar antes, quando me deram a provar uma substancia que jamais havia utilizado antes, mas tampouco tinha feito autotransfusões.

Pela manhã tinham-me dado 50 mililitros do dito produto. Antes de sair estive no hotel Village, falei por telefone com a minha namorada, a Marina, e disse-lhe: “Prepara-te, que segundo entendi hoje vou andar bem”. Acontece que a metade da etapa dá-se uma fuga antes de se chegar à subida, que está ao quilómetro 50. Todo a gente da equipa arrancava para que essa fuga não ganhasse tempo ou para se voltar a juntar tudo. E o diretor a gritar: “Me cago en Dios, esse Manzano não tem tomates”. Arranquei e atrás de mim veio o Richard Virenque, que não me deu nenhuma ajuda porque tinha lá na frente o Paolo Bettini que corria na mesma equipa.

Conversei com dois companheiros e disse-lhes que me sentia esquisito, que tinha uma sensação do tipo pásara (esgotamento), aturdido, como quando levas 200 km em que já só vais por inércia, e com os braços sem força. Era como se as manetes das mudanças estivessem largas. Insisto, muito esquisito.

Arranco a meio quilómetro do início da subida e não podia quase nem meter mudanças pela sensação de formigueiro que tinha nas mãos. E ao quilómetro três da subida já começo a ter sensações de desmaio, com muito calor, e suores muito frios, alternâncias de calor e frio, mas, sobretudo de muito frio.

Apesar do calor de julho, comecei a sentir uma tremedeira e sensações estranhas, Virenque ao ver-me assim até se afastou. Vou mais meio quilómetro para cima e havia uma curva. Fazia tanto calor que até o alcatrão do asfalto estava derretido. Houve quem dissesse que me atirei. Nem que tivesse feito milhentos saltos na brigada paraquedista. Só me lembro de ter desmaiado e não me recordo de mais nada. Se caí, se me levaram para a direita, ou se me levaram...

Notei uma espécie de sensação de desmaio e a vista como se me apagasse. Dai a pouco apercebi-me de que tinha a camisola cortada já na ambulância e que me estavam a dar uma injeção, eletrocardiograma e afins. Sentia-me estranho, tinha a língua tipo inchada, como senão entrasse ar. Se me tivessem feito um buraco na garganta, para melhor respirar, tê-lo-ia agradecido.

Já a soro levaram-me numa ambulância ao hospital. Não sei o que te receitam nestes casos, fizeram-me uma revisão geral... Desde a manhã até às onze da noite que foi quando cheguei ao hotel de Morzine não tinha ainda urinado. Tinha o ventre inchado, parecia um barrigudo. Quando cheguei ao hotel, o médico andava pelos quartos, estiveram-me a fazer perguntas e não digo mais, percebes? Que a mim não me explicassem, o médico é que é o analista, que se isto estava baixo, que se isto estava mais alto... mas eu aposto que foi por causa daquele produto que se utilizou. Quer dizer, tive um problema por causa do mau estado de conservação desses produtos ou por outra coisa, percebes? Eu não creio que tenha tido nenhum outro problema para que tivesse que me retirar da prova. Já que tenho que abandonar, direi que tenho uma tendinite ou o que seja. Mas eu nunca me retirei pelo que algumas pessoas disseram, que foi devido ao sol.

Acontece que até à meia-noite ou uma da manhã não pude urinar. O doutor que estava no Tour deu-me umas pastilhas, com as quais comecei a urinar devagar, mas toda a noite tive a tripa destroçada. Logicamente, ao abandonar, o segundo saco de sangue não o cheguei sequer a utilizar. Tive que vir para Espanha com o meu representante, que por certo teve despesas e não lhos pagaram

Tive medo pela minha saúde. Dás-te conta que uma pessoa que está bem de repente fica mal, creio que ninguém gosta. Por duas vezes tive medo na minha vida: uma foi esta no Tour e a outra pouco tempo depois em Valência, quando me retiraram todo migado de um comboio. Após o Tour pensei em deixar o ciclismo, porque tens medo, porque dás-te conta que o corpo é teu e se estás a ganhar oito milhões de pesetas e eu prefiro ganhar 150 mil a colocar ladrilhos. Posso até cair de um andaime, mas não aceito que alguém te provoque a morte. É o mesmo que mandares fazer uma casa e ela cai-te ao fim de meia dúzia de meses. As pessoas que não são competente não deviam aqui estar.

Isto aconteceu por má conservação ou por vá lá saber-se porquê. Perguntas a qualquer médico de cabeceira e ele diz-te que se tomares esses produtos tens que ir um médico especialista para te tratares, e dá-te uma, duas ou três caixas por ano. Mas aqui no ciclismo, três caixas por ano é como se alguém comesse um pacote de pipas. Claro que tive medo. É claro que na cidade pode até haver um gajo que te dá um tiro, pois que se lixe tenho que me aguentar. Ou posso tropeçar e na queda partir algo. Mas não por um problema de outra pessoa que me o venha a passar para mim. Aquilo foi mas é negligência médica.

Voltei do Tour e estive uns dias em casa todo marado. Tinha sensações estranhas e estava deprimido. Atiras-te em grande a preparar uma corrida muito tempo e crês que te vai correr bem, e por causa de pessoas de fora... Bom, não tão de fora, trata-se do chefe dos médicos. Há que ter responsabilidade, porque que são vidas humanas, não somos cobaias, nem coelhos da índia, para isso existem os laboratórios para testar, e os animais, mas não as pessoas.

Naquela noite desci para jantar, comi pouca coisa, porque não tinha fome, e sede ainda menos, porque estava inchado como um urso. O diretor disse-me que ia fazer a Volta a Portugal e que isto e que aquilo. E disse-lhe: “Pois sabes o que te digo, não sei se vou correr mais”. E diz-me o diretor: “Se não corres este ano, não corres no próximo”. E disse-lhe: “Homem, se não corro este ano, para que vou eu correr no ano que vem!”. Bom, pois acontece que se acabou o Tour e mal chego a casa, queriam que ficasse mais dois dias ali, estando eu naquele estado, até que voltasse o manager da equipa, e, eu disse que não queria ficar porque estava exausto, e foi assim que voltei para casa.

Transfusão em Valencia: “Quase que regressava num caixão de pinho”

Faltavam quatro dias para terminar o Tour chama-me o médico chefe e disse-me que tenho que ir para Valência por causa do pacote de sangue que faltava. Lá fui porque se não o faço, dizem-te que és indisciplinado por não fazeres caso do médico da equipa. O médico da equipa tem muito poder, é como se o diretor fosse o Rei de Espanha e ele o chefe do Governo.

Foi em 25 de julho, creio. Fui para Valência, fiquei num hotel, onde as pessoas da equipa me disseram que havia um problema no Tour e que esse problema afetava também a equipa, pois dera-se o caso de alguém ter dado positivo, o que a mim tanto se me dá como se me deu. Não preciso de julgar ninguém. Eu só tinha vindo num comboio de Atocha para Valência, estive num hotel, ao lado da rua Linares, que paguei eu. Foi lá ter um senhor numa motoreta, supõe-se que seria o ajudante do médico, com uma malinha que trazia entre as pernas e acontece que mal chego ao quarto me diz: “Olha, este é o teu pacote de sangue”, mas não dizia lá Manzano em nenhum lado, nem os testes cruzados nem comprovativos de nada. Podia ser o sangue do Pepito Flores.

Preparam-no ali mesmo, penduram-no num suporte, sento-me numa camilha, enquanto a minha namorada estava na sala de espera. Estou a falar de julho em Valência, fazia cá um calor, e começam-me a meter do dito pacote. Quando já levava 125 ml de sangue, começo a sentir-me muito, muito, mas mesmo muito mal. Com escalafrios, com tremedeira. Davam-me mantas e eu tinha cada vez mais frio, como se estivesse no Polo Norte.

Se me tivessem chegado a meter o meio litro voltava numa caixa de pinho. Meteram-me entre 125-175 ml e se com isso te acontece isto, se chego a meter o saco inteiro! O que é que me teria chegado a acontecer? Pelo que eu entendi, este pacote esteve no Tour e em má conservação. O médico disse à minha namorada que tinha estado um bocado desnorteado. Repara, desnorteado, é que estamos a falar da vida de uma pessoa. Eu estava todo marado e cheio de frio e dão-me ali a volta como se eu fosse um cão. Injeta-me Urbasón, que é um corticoide para problemas alérgicos, inflamações e intoxicações, mas não pensem que me injetou uma ampola, injetou-me duas caixas. Telefonei à minha família, falei com o meu pai e contei-lhe os factos, e a minha mãe queria-se meter imediatamente num táxi. Eu estava todo marado, mas o médico não me deixava ir a um hospital nessa altura.

Um drama no comboio: “Este rapaz vai morrer’, disse uma pessoa”

Sinto-me muito mal, mas lá me consigo levantar, monto-me num táxi para chegar à estação de Valencia. De tal modo estava que o taxista perguntou-me para que hospital ia. Entretanto a minha mãe telefonou ao gerente para saber o que se estava a passar. E o que se estava a passar eram negligências médicas, aldrabices a toda a hora. Isto que digo não é indisciplina nem são faltas graves, que fique claro. Então eu estava na estação e para que é que te vou enganar, com frio, arroupado como podia porque tinha frio. Então pedi às pessoas que me deixassem passar, porque havia fila para se tirar bilhete. Entrei no comboio, ia em primeira classe, e aí senti muitíssimo calor. A minha namorada foi pedir se podiam desligar o ar condicionado. E responderam-lhe a ver se podia aguentar até Madrid.

O revisor do comboio decidiu desligar ar condicionado. Ainda assim pedi-lhe uma manta, mas não tinham. Estava um homem lá mais à frente que dizia: “Este rapaz não aguenta, este rapaz vai morrer”. O comboio não arrancava se eu não descesse. O manager da equipa devia ter chamado o médico que sempre acabou por vir. Tirou-me do comboio aos ombros e levaram-me outra vez para a clínica e começaram a dar-me mais Urbasón.

Depois o médico saiu de Valencia, porque tinha que ir a uma contra-análise em França. O normal seria que me avisasse de que havia um problema que se estaria a passar com um companheiro. Depois fui outra vez para o mesmo hotel e estive toda a noite jodido, jodido, jodido... não conseguia dormir, angustiado, com mal estar e com pesadelos. Repara no estado em que estaria, que a minha mãe continuava a querer vir ter comigo.

Saí da clínica pela primeira vez perto das quatro e meia e até às nove e meia da noite, mais ou menos, não conseguia nem falar. Recordo-me que mal me punha de pé caia logo, não me conseguia nem levantar. No dia seguinte continuei ali e finalmente o médico disse-me que tinha gripe. Eu já tive gripes mas nunca estive tão mal. Telefonou-me o diretor e diz-me para não contar a ninguém da equipa. Porque é que eu não posso contar a ninguem da equipa? Porque não? para puder acontecer o mesmo a outro?

publicado por Ubicikrista às 19:35

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