01 de Outubro de 2009

"Deram-me  hemoglobina para animais"

Há hemoglobina de várias marcas: o Oxiglobin, do laboratório Biopure é para animais e há outro laboratório que é o Hemopure com hemoglobina para humanos, não sei ainda como se chama. Eu só conheço o Oxiglobin, que é a de animais. Creio até que é um produto que não se comercializa em Espanha, é estrangeiro.

Nos Estados Unidos, e creio que em França, vende-se em farmácias, mas tenho que o confirmar pela internet. Isto vem em caixas de 120 miligramas, divide-se em 60 e 60, é de cor sangue, muito escura e toma-se consoante o nosso peso.

Oxiglobin “Usada para cães com anemia”

O que se passa com este é que te podes dar bem com ele ou dares-te mal, porque estamos a falar de uma coisa para animais. Tu não o podes meter numa pessoa a caixa toda, terias que calcular o equivalente segundo o seu peso. Usa-se para cães que têm anemia e coisas parecidas.

Tomei este duas vezes, ambas na temporada de 2003. Uma vez fui a um Campeonato de Espanha de contrarrelógio em Madrid e a outra no passado Tour, no tal dia em que acabei por perder o conhecimento e  abandonar. Foi de manhã, tomei-o duas ou três horas antes para que fizesse efeito. Isto o que te faz é que mesmo que tenhas o hematócrito muito, muito baixo, a hemoglobina está muito, muito alta. O limite da UCI é de 17.

A hemoglobina alta antigamente detetava-se, mas eu não sei... não sei se o dizem para assustar os médicos e todos aos ciclistas, dizendo que se desteta ou que não se detesta. Não se tem que ser tonto e é da praxe. Venham os vampiros ou não venham de manhã, poem-te isto e o efeito depois tê-lo-ás ao longo da etapa. Depois, quando voltares, já se terá gasto, porque não é um produto de longa duração. Quando te montas na bici e estás a tope até se gastar. Vamos imaginar, por exemplo, uma etapa de 180 quilómetros. Vais sempre com o pulso a tope.

Todas estas hemoglobinas são sintéticas. Esta vem num caixa como se fossem aminoácidos, prateada e com o nome. Não sei se é comprada em farmácias ou não, mas tem que ser um produto caro, e penso que o é.

Após os acontecimentos de San Remo no Giro de Italia de 2001 falou-se de um produto de nome Hemassit, mas eu não o conheço. Haverá mais hemoglobinas, claro. Eu cá não me meto nisso. Deus queira que aquele corredor envolvido tenha uma grande temporada, porque é um bom corredor. Pois já viram, se se tivesse passado comigo estava no olho da rua. Para que vejas as diferenças entre como tratam um craque e um pobre trabalhador, compreendes o que digo? Mas eu o Hemassit não o conheço. Mas conheço, por exemplo, o Hemopure, seja francês ou estado-unidense.

Actovegin: “É plasma de bezerro”

Depois utilizei o produto Actovegin, que é plasma de novilho jovem. É um produto alemão e muito caro, mas não sei o preço. Na gíria ciclista chama-se gás bus. É um produto que oxigena muito mais o sangue e é indetetável. O seu efeito é apenas de um dia. Põe-se para uma etapa que seja complicada. Por exemplo para um crono. Numa etapa difícil, o corpo oxigena mais.

Isto é como uma moto de 500cc, com truques, poes um carburador e obténs mais gás. São umas ampolas de vidro, que não se poem inteiras. Sim é com uma seringazinha de 20, poe-se 10 de Actovegin e 10 de soro. Injeta-se na veia.

Nos cronos curtos poe-se pela manhã, mas nas etapas complicadas quando tens que ir à luta injeta-se no dia anterior. Em concreto para um contrarrelógio combina gás bus, bicarbonato, ácido láctico, Cafeín, uma marca de cafeína que se injeta no rabo e que, por certo, dói como o caraças. Dizem as pessoas que se não é cafeína, não dói.

Método para mascarar: “Grãozinhos para deteriorar a urina”

Outra coisa que parece que há por aí são uns pós ou uns grãos, algo assim, que deterioram a urina, mas eu não os cheguei a ver e tampouco sei como se utilizam.

Depois há outras coisas de que ouvi falar. Eu só usei o que me deram. Chegaram a dizer que eu me automediquei, mas nunca dei nenhuma vez positivo, isso que fique claro. Estão aí os controles da Federação Espanhola e se têm amostras guardadas, que as analisem.

Nandrolona: “Usa-se no inverno no ginásio”

A nandrolona comercializa-se como Deca Durabolin, que é um produto da Argentina, e Deca Durabolin normal, que vem da Grécia. São de 200 miligramas, são injetáveis, ainda que também se podem tomar em forma de pastilhas. Além disso, muitas dessas pastilhas fazem-se em Espanha em laboratórios clandestinos... e podem ser amarelas, brancas e vermelhas.

Diz-se que a nandrolona se põe em competição, durante a temporada, mas realmente utiliza-se no inverno. Faz parte do plano do ginásio. Se estás a trabalhar  num ginásio e estão-te a pôr nandrolona.

Aplica-se no rabo e diz-se que no inverno é suposto que o ciclista ou o desportista esteja mais gordo. Então injeta-se e se não chega diretamente ao músculo rebenta na pele ou nas banhas, e fica ali. Então, quando te estás a esmerar, o ar que se formou na bolha, escapa e espalha-se. É nesse momento que dás positivo. É assim porque fica no tecido e não vai diretamente ao músculo.

Há que ter em conta também que uma vez injetado aproveita-se muito mais. Porque se o tomas em pastilhas, aproveitas uns 25%, injetado é uns 50% e em algumas vezes100%.

A nandrolona pode-se começar a tomar em outubro, mas não se pode pôr demasiado para andar de bici, porque te bloqueia. Faz-te perder muito a força com as mudanças. Usa-se mais no ginásio. O corpo não está preparado. Usa-se para a musculatura e para um monte de coisas mais.

Antes de dezembro deixa-se de tomar. Mas isso depende se começas a temporada antes ou depois. Se vais correr no Tour, começas aquando do Giro, quando não estiveres a correr, porque depois já se sabe que a nandrolona se for em pastilhas, durante dez dias não dás positivo.

Não tenho nem ideia de quanto custa um tratamento. O que sei é que um frasco de nandrolona vem a custar-te 4.000 ou 5.000 pesetas, de 50 ou de 80 pastilhas. Não é caro. Em pastilhas não faz o mesmo efeito que injetado.

Nos últimos tempos tem havido positivos no futebol com nandrolona. Eu não percebo, a não ser que haja casos de que o desportista esteja gordo, porque é que não lhe chega ao músculo, se forme uma bolha entre a pele e depois dê positivo por isso.

No ciclismo, no inverno ganham-se quilos. A mim chamavam-me cara de pão. Cheguei a ganhar 15 quilos, mas não foi pela nandrolona. Cada um gosta de comer e é até normal que o faças quando estás inativo. Eu posso falar por mim e não de futebolistas ou de outros ciclistas. Podes ter um 11% de gordura e depois, quando afinas, baixá-lo até aos 8%, e com este valor já estás muito bem.

Depois há o Androgel, que é a famosa testosterona, que se dá os homens quando sofrem de impotência. É um adesivo tipo remendo que se põe durante duas horas e tens que o ir massajando. Aqui temos um ( mostrou-o), que como se pode ver tem um adesivo. Tira-se o adesivo e fica como uma membrana. Mas só o podes ter posto durante duas horas, insisto, porque se o tens mais tempo pode até dar positivo.

Diz-se que com isto recuperas, mas eu não gosto. Isto, se formos a ver, ninguém teria medo de o retirar. Durante os jantares vêm-se muito com ele posto. É um produto com o qual dás uma massagem e depois retira-lo.

E o ciclista não é tonto, pois nunca nos esquecemos de o retirar. Há que ter em conta quando um corredor lhe cheira de que com isto pode dar positivo e nenhum de nós quer isso.

Testosterona: “Há uns supositórios clandestinos”

Esta testosterona não se utiliza nos treinos. Aí costuma usar-se outra coisa que se chama Andriol. Não é nandrolona, este é um Decanato de testosterona, vem num frasco com 60 unidades a 40 mg por comprimido, procedente de Portugal.

Há outras coisas como o Rastandol, que vem da Holanda, mas que não se vende em todos os países. Aqui em Espanha está o Testovirón. Com este último faz-se um tratamento para os treinos. Dá-te conta que custa 12,50 euros e mete-se por via intramuscular. Vai direto rabo, que, por certo, dói como o caraças. Isto é Enatato de Testosterona. Demora a tratar e dá positivo durante um tempo. São vários nomes... e já disse o Andriol, o Rastandol, mas há um monte deles... Depois também se utilizam tratamentos de Toxandrolona.

Por certo, também utilizei uns supositórios de testosterona, que penso que se fazem em laboratórios clandestinos, porque não têm marca nem nada. Supõe-se que estes supositórios não dão positivo.

Quando te fazem um tratamento de testosterona e estás em competição não dás positivo durante quatro dias. Páras e não dás positivo. Tu fazes um tratamento quando vais competir e ao quarto dia de competição cortas com ele.

Mas depois há outra coisa que se chama epitestosterona, que é o caso da HMG, a hormona masculina. Faz-se este tratamento para que a UCI não te possa dizer que a testosterona está alta e a epitestosterona está baixa. Então há o HMG (hormona masculina), o Andriol. Então tem que se tomar este último para igualar os dois níveis.

Cortisona: “Não espalho sal nos testículos”

Eu sou alérgico, mas não a muitas coisas. Aqui até o massagista pode ser alérgico, e o mecânico... Chamou muito a atenção o que confessou recentemente um ciclista francês sobre que se espalhava sal nos testículos para que lhe saíssem grãos e lhe pudessem receitar cortisona. Eu nunca o fiz, não seria parvo a esse ponto.

No outro dia, por exemplo, fui mostrar o meu boletim de saúde a uma pessoa do ciclismo, que me disse: “Tu só tens isto marcado?”. Porque os corticoides não se podem utilizar se não for por prescrição médica e vão-tos anotando no boletim. E então eu disse-lhe : “O que queres que tenha?”. E respondeu-me: “ Mas tu sabes utilizar isto?” “Caraças, pois claro que sei utiliza-lo”. E que conste que era uma pessoa que sabe o que está em jogo, que esta metida no ciclismo e é presidente de qualquer coisa.

Isto tem que lhe diga. Tu pegas nele e zumba, tica, tica, tica, tica, ticapum... Tu num Tour já não podes meter cortisona, porque vais parar ao olho da rua. Mas a cortisona no boletim chega-te para um mês. Se assinalas no boletim antes do Tour, com data anterior, dás-te conta do enredo que está a arranjar. Se já estás com cortisona, vais dar positivo, então podem-se fazer coisas que vou contar. Por exemplo, se tu tens tendinites a cortisona acusa o mesmo quer te a ponham aqui ou te a ponham no rabo, porque já a tens no corpo e usa-se para dar força.

A cortisona deteta-se nos controles anti dopingue, mas se tu a tiveres no teu boletim de saúde não dás positivo. A mim dava-me muita graça, porque lia aquilo francês no outro dia e disse-me que metesse sal nos tomates. Digo: Mas como é isto possível? Parei para pensar.

Depois também há pomadas. E a Sinacthene, e a Triancinolona... esta é uma pomada que estimula (vem em tubo). Dizia-me, põe ai os tomates a jeito que damos-te um pouco. Se o fizeres agora só com isto dás positivo. Usa-se para as comichões, irritações e coisas dessas.

Com isto acusas o mesmo que com uma seringazinha e tanto te dá positivo usando esta pomada como uma seringona de Trigón. A Triancinolona é o Trigón. Mas esta pomada não melhora o rendimento, logo o que se utiliza é o Trigón com agulha espetada no rabo. Se é subcutâneo poe-se os de 0,15, 0,40... isso já depende da dose de cada um.

Diferente legislação: “Em França dás positivo mas aqui não”

Também quero contar o que passa no Tour com a cortisona. A lei que existe em França não é a mesma lei de Espanha. A cortisona em França é nasal. Se tu, quando passas o controle, dás 0,9 microgramas em sangue de Cortisona, com o tempo já não podes voltar a dar esses 0,9, terias que dar 0,6 ou 0,7 pelo menos. Isso já é considerado positivo. É o que acontece em França.

Houve um caso famoso com cortisona de um espanhol em França. Eu não sei se isto se passou, porque não quero acusar ninguém, nem desejo que ninguém deia positivo, porque isso significa famílias e pessoas arruinadas. Pessoas que vão para a porra da rua. Se não és um craque, vais parar ao olho da rua.

Tu chegas ao Tour, passas o primeiro controle e a seguir metes cortisona, mesmo que metesse uma ninharia podes dar 0,15 microgramas no sangue. Pois insisto, tu passas noutro controle ao décimo dia e não podes dar 0,10, mesmo que o Trigón seja um produto de longa duração, que é o que mais se utiliza nos tratamentos longos.

Então a lei francesa vai dizer que dás positivo. O que passa é que aqui em Espanha poes meio Trigón, passas o controle e não te sucede nada, mas ali não. Ali tens que ter uma justificação.

Um produto muito conhecido é o Ventolín. E muita atenção ao que vou dizer: eu creio, estou seguro disso, que há pessoas no pelotão que realmente são asmáticas. Isto está claro, como em qualquer profissão. Há de tudo, mas como fazes desporto, já tens o teu estudo pronto e preparadinho da silva.

Sendo assim, marca-se no boletim de saúde e não há nenhum problema. Ou melhor, que não há razão para dares positivo. É nisto que se diferencia a lei de França da espanhola.

E depois há muitas substâncias (e mostra um produto). Este é o Sinacthene, que também é cortisona e é francês. Há-os de 0,25 ou de 0,50. Também o há de efeito imediato, que é diferente da outra cortisona, porque o Trigón, por exemplo, não se pode meter na veia. No entanto, este corticoide pode-se meter na veia. Com este dizem que não dás positivo. É feito de cortex cerebral. Este é um produto de laboratório, por isso é que para este tens que ter uma receita.

Há varias classes de produtos, muitos deles contêm cortisona, mas são diferentes entre si, não se podem mesclar. Há unas pastilhas em França que são também de cortisona, mas que são derivadas do Celestone, que se chamam rosinhas na gíria ciclista. Penso que são pastilhas francesas, que se poem debaixo da língua.

Por exemplo, se eu utilizo o Trigón quando corro, não posso usar as rosinhas, porque o Celestone e o Trigón têm distinta composição. São completamente diferentes. Depois também fizeram pastilhas de Trigón, que neste caso são de cor branca.

Ainda, na gíria ciclista, há outras pastilhas que chamamos branquinhas, mas não há que confundi-las, porque branquinhas chama-se à cafeína. Tudo o que há até agora deste último género, são de laboratórios clandestinos que se dedicam a fazer lotes de pastilhas. Estas cafeínas não se vendem no mercado normal. Enfim, voltando ao assunto, há muitas categorias de cortisonas e ficaríamos aqui a semana toda a falar disso.

Hormona do crescimento: “Se tens cancro, tens que parar”

Antes de terminar por hoje quero fazer algumas considerações sobre um assunto que já falámos. Existe a ideia de que se tomas hormonas de crescimento tens as mãos maiores ou andas com aparelhos na boca. Eu, sinceramente, penso que não.

Eu não sei até quando vou durar nesta vida e muito menos agora, quando se sofre ameaças de pessoas que não lhe interessa o que veio a público. Isto está tapado pelo dinheiro.

E eu creio que, voltando à pergunta, são tontearias que se dizem. Pode-se ver no Vademécum, que a hormona masculina o que faz é estimular-te na prevenção de futuras enfermidades. Se vais ter cancro, sais antes.

Não posso falar sobre isso dos dentes ou das mãos, eu tenho as mãos grandes, mas já as tinha desde pequeno. Aqui a verdade é a pura verdade, as mentiras têm as pernas muito curtas. Isto é o que me dizia sempre o meu pai.

Mudando de assunto, mais outra pontualização. Quando não falei no primeiro capítulo de um tratamento na Volta às Asturias em que fiz dois médicos discreparem entre si, na altura não disse qual o produto. Estava-se a utilizar uma EPO que se chama Epocrin. Esta EPO é russa e tem uma menor duração, a que tem maior duração é a Eprex. Mas insisto no que disse no outro dia. Todas as EPO´s dão positivo e se há um médico que te a manda tomar e outro não, o que é que eu faço? Se desobedeço e depois não ando, vou para o olho da rua.

publicado por Ubicikrista às 19:40

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