01 de Outubro de 2009

Quando me dopei pela primeira vez? Quando era amador não fazia estes tratamentos, como amador eu não me dopei. Bom, cafeínas sim tomei, Não me nego em dizer que não tomei cafeínas. Mas este assunto agora é outra coisa.

Nas categorias de amador terminei um Campeonato de Espanha... e se Deus quiser, uma pessoa que já está debaixo da terra, pudesse levantar a cabeça (refere-se a Chava Jiménez), ela poderia contar para onde é que eu fui depois da corrida. E está lá escrito que eu passei num controle. Se tivesse que cortar um braço ou uma perna para que essa pessoa pudesse estar aqui no mundo, fá-lo-ia.

Amador: “Aí não cheguei a provar EPO, nem as hormonas...”

Naquele Campeonato de Espanha, em Córdova na subida ao Cerro Muriano, fiquei em segundo, atrás de um corredor basco. Nesse dia passei num controle da federação e depois levaram-me pra um hotel, onde estava uma equipa de profissionais, de quem não te vou a dizer os nomes. Não é a mesma equipa onde corri. Mediram-me os valores do sangue e esse médico que diga, se se considerar atingido, ele que diga os valores de sangue que eu dei. Não chegava nem aos 40 de hematócrito. E com esse nível fiz segundo.

Não como na última Volta a Espanha, quando algum hipócrita dizia que eu tinha 50 de hematócrito. Não tinha nem 48! Tinha 46 e meio e numa veia 47. Isso não são os 50. Não é o mesmo que um carro te custe cinco milhões ou que te custe nove. São três milhões de diferença.

Como amador não provei EPO, nem a hormona de crescimento... !Jamais. Jamais...! Dizem-me que essa categoria agora está podre, mas isso eu não sei. Na minha época, quando eu lá andava, não estava. Tenho que dizer, e digo-o sinceramente, que eu, antes de ser amador, alguma vez na vida, jamais, jamais, tivesse tomado recuperadores. E foi na categoria de amador que me comecei a recuperar. Quer dizer, com soros, com qualquer soro glucosado, eu mesmo punha duas seringas de 20. Isto como amador. Eu não escondo nada. Não sou um cobarde. Se alguém se sente indignado, que salte cá para fora e fale.

Ultimamente já parei para pensar nos efeitos secundários da dopagem e claro que pensei deixar o ciclismo. Eu entrei neste desporto com a maior ilusão do mundo, porque marquei uma meta e trabalhei para ganhar dinheiro ou para chegar a ser alguém. Não creio que tivesse sido tão mau como amador, quando ganhei a Volta à Extremadura, fiz segundo num Campeonato de Espanha, terceiro na Volta a Sevilha... e só corri seis meses nessa categoria.

Cada um de nós marca as metas que quer alcançar. Com ilusão e ambição ganha-se tudo. Entras numa dinâmica que não te vou mentir. No primeiro ano foi tudo cor-de-rosa. No segundo ano começas a ver as rosas, mas sem as pétalas, e no terceiro ano já notas os espinhos. Tens que enfrentar coisas que vês que estão ali mesmo.

Eu comecei a ver coisas porque, claro, todo isto tem efeitos secundários. Diz-se da hormona de crescimento que se tens uma enfermidade é como se a estimulasses para que a tivesses antes de tempo. Tudo tem efeitos secundários. O tabaco. Se fumas um cigarro, não te acontece nada, mas se fumas todos os dias dois maços, vai-te acontecer.

Ultimamente tenho pensado que morrerei antes dos 50 anos. Dás-te conta de que estiveste a brincar com produtos que atraem as doenças antes de tempo. Eu trabalho para ganhar dinheiro. É suposto que cada um trabalhe para que lhe paguem e para tentar ganhar mais dinheiro. Se eu morrer, pelo menos que a minha família fique bem.

Pressão profissional: “Se não andas, vais para a rua. Então tomas...”

Isto é uma pescada de rabo na boca. Se não andas, vais para a puta da rua, ou aceitas ou deixas. É claro que se poderia correr sem dopingue, mas um ciclista não poderia fazer o Tour e a Vuelta, por exemplo. Haveria coisas que não se poderiam fazer, porque estarias no limite. Recuperar-te-ias pouco a pouco, mas se o ferro te baixar, como é que te recuperas?

Poder-se-ia correr, por exemplo, se as etapas de 200 quilómetros descessem para 140. E os ciclistas dariam mais espetáculo. Mas como nesta vida tudo se move por dinheiro... Quando vês que andaste em determinados sítios, que fizeste o teu trabalho, e para quê? Para que te paguem dois milhões de pesetas? Se eu cair de um andaime, azar é porque caí, mas aí ninguém me está a matar.

Mas porque é que não o dizemos? Tu já viste algum ciclista que tenha uma profissão? Quantos há no pelotão? Eu conheço dois ou três, muito poucos, porque a bicicleta obriga-te a treinar muitas horas. Tens que trabalhar todos os dias cinco horas, e vais deixar isto agora, depois de toda a puta de uma vida?

O seu futuro: “O corpo ressente-se do dopingue”

Não interessa se abandono ou não. Continuo e dizer, que fique claro, que não acuso companheiros meus. Falo de mim. Mas, como já disse ontem no anterior artigo, sabes como isto deveria acabar? Sancionando também o médico e o diretor.

Claro que pensei em deixar isto. Se tiver que comer em vez de duas costeletas uma, pois que se lixe, mas faço-o. Já pensei. Para quê? Para ganhar oito milhões de pesetas sem saber se chegarei aos 50 anos? Não sei mesmo se lá chegarei, porque creio que o corpo se ressente. Um rim já o acusa.

E já que estamos a falar de recuperadores, de protetores hepáticos, o S’Amet, o tal que se vende nas farmácias, e que dia sim, dia não tens que o meter. Isto está permitido e serve para nos proteger, mas quem anda a pôr ladrilhos não tem que pôr isto? Isto é-nos dado para as drogas, então isto também são drogas. Não o pó branco, que alguns dizem por aí que eu o trafico. Drogas há muitas...

Obrigam-me a dopar-me? É uma pregunta difícil de responder. Mas eu não me escondo. Insisto que esta é a pescada de rabo na boca. Tu passas para o ciclismo profissional com toda a ilusão do mundo, crendo que vais construir o teu futuro e quanto mais andares, mais ganhas. Chega o médico e diz-te: Vamos-te dar isto. Se tu dizes que não, ficas marcado para o próximo ano.

A ACP: “Como é que me defende a minha associação?”

E porque é que a ACP (Associação de Ciclistas Profissionais) não faz nada? Não tenho resposta. Creio que a ACP existe para apoiar o ciclista. A mim fizeram-me chegar uma mensagem, através de um número de telefone, em que me diziam que estavam a fazer um pacto de silêncio. Não foram exatamente estas palavras, mas mais ou menos. Depois todos vimos por aí o que dizia o comunicado assinado por todo o pelotão.

O ciclismo é a galinha dos ovos de ouro, mas isto tem que acabar. Se tiver que ir a um julgamento, irei a um julgamento; se tiver que ir a tribunal, terei que ir a tribunal. Tenho que ser sancionado porque não me pagam, porque me fizeram dopar-me, porque isto é a tal pescada de rabo na boca, porque se tu não andas vais para a puta da rua e então tens que tomar isto?

No meu primeiro ano de profissional não me ofereceram nada, mas no segundo ano já ofereceram. Eu pago por ser socio da ACP, 600 euros por ano, pago a licença federativa do meu bolso, pago uns 10 por cento dos prémios aos auxiliares da equipa, que o merecem, porque são pessoas trabalhadoras. Então, onde é que a minha associação me defende? Aqui, tal e qual, também há que abrir uma porta de investigação.

O despedimento ocorreu na antepenúltima etapa da passada Vuelta, quando dormimos em Villalba. Em todas as etapas ia-me atrasando de tanta cortisona que já levava em cima do joelho. Estávamos na zona onde moro, logo, tinha que continuar ou rebentar. Então diziam-me: “Pareces recuperado”. E eu respondia que não, porque ainda me doía.

O despedimento “Acusam-me de ter sexo e de me automedicar”

Meti-me numa fuga. Perto de Torrelodones iam-me a dar picadas, mas que desapareciam. Cheguei a Leones. Mandaram-me parar, com tanta sorte que até estava com problemas nos auriculares. E eu ali parado. E os do carro da equipa: “Por Deus, porque é que tu não respondes”. E lá ia dizendo que estava parado. Querem que fique aqui parado na berma da estrada ou que dê a volta em direção contrária?

Depois de chegar, saí para tomar uma coca-cola com um amigo e outra pessoa. Telefona-me uma amiga a dizer que me vem ver. Estivemos a tomar qualquer coisa e foi jantar. Depois de jantar mediram-me e tinha 46 com uma pessoa e com a outra 47 de hematócrito. Depois subi para o quarto e fiquei a conversar com a minha amiga.

Tocam à porta e digo: “Entre!”. A moça não se escondeu, porque não estávamos a ter sexo. Abro. “Podemos falar?”. E o diretor, acompanhado do manager, disse-me: “Tu amanhã não sais, porque não estou a gostar nada do teu comportamento. Mas, como é que podes crer que estarás nos 50”. Digo-lhes que iria estar nos 50, porque duas pessoas já me tinham medido.

Pensariam eles que me estava automedicando. Ma s porque é que me vou eu a estar automedicando! Se agora não há EPO da que não dá positivo. Indisciplina, foi isto que contei ao AS. Os anteriores desentendimentos com o diretor tinham sido por culpa de outras negligencias médicas.

É então que me expulsa. Digo-lhe que terá que me pagar os gastos. Responde-me que não tem dinheiro. Replico: “Esse não é problema meu”. No dia seguinte não saí. Às três da tarde expulsam-me do quarto. Desço e vejo o manager ali que estava detido. Levo um papel com todas as despesas de 2002 e princípios de 2003. Faço uma lista. Disse-me: Tenho um problema, fiquei com o manager mas tenho que ir. Podes assinar aqui e amanha ao jantar dou-te o recibo”. Mas no dia seguinte não me deram nada.

O dinheiro já me o pagaram, mas esse papel em branco que assinei acabou por ser utilizado para a minha carta de despedimento feita à mão. Nem DNI de um, nem de outro, nem de nada. A partir daí reclamam umas despesas do princípio do ano, do Hotel Patilla. Descontam-mo da lista. De uma lista de 2.900 euros fiquei apenas com 800. E tenho por aqui o recibo a justificar.

Drogas: “Do Prozac às drogas vai um passo”

Depois disso chegou um fax onde dizia que me retinham o pagamento de dezembro porque não havia devolvido as bicicletas. Depois enviei-las. Já lá estão, mas e eu recebi o salário? Aqui não diz que está pago o salario. Já foi tudo enviado. Agora denunciei-os. Devem-me ainda o mês de dezembro.

Eu tenho um contrato até 31 de dezembro de 2004 por dez milhões de pesetas. Pois bem, telefono para me fazerem a carta de despedimento. E nada. Telefono para a gestora. Disseram-me que a fariam. Saio de Ávila para Alicante com um amigo de carro, a 220 à hora. Chego e peço a alguém uma cópia do contrato original e dá-me esta carta manuscrita donde diz que acabou em 2003. E o fulano disse-me: “Mas esta carta não a escreveste tu?”. e respondo: “Não, não...Esta é a minha assinatura, mas esta carta não fui eu que a escrevi”. Esta é pois a carta de despedimento que me deram. E depois dizem que é por mútuo acordo.

Depois disseram que eu teria um clube de alterne, oxalá. Depois acusaram-me de narcotráfico. Eu não sou um camelo carregador de pó branco, como me chamou um diretor quando telefonou para a minha casa. Isto é muito grave. Se assim fosse teria sete carros, sete casas e não viveria num apartamento alugado. Eu não tomei cocaína. Só experimentei um charro quando andava a estudar no Instituto e chegou-me tanta fome que comprei uma Pepsi e um pacote de gomas. Nunca mais.

Uma coisa são as drogas e outra a dopagem. Isto não quer dizer que um corredor seja um drogado dependente da cocaína por causa do ciclismo. Mas já será se te envolveres noutras coisas como os antidepressivos, o Prozac. Isto estimula-te. Se tomas antidepressivos, tomas duas pastilhas por dia e ficas com uma moca do caraças.

O Prozac é uma coisa que se tomares duas pastilhas diárias, andas eufórico. Por isso quando deixas de tomar, crias uma dependência. Isto não dá positivo. A pastilha da felicidade, é assim que ouvi dizer por ai que lhe chamam. Duas ou três pastilhas por dia. Porque o corpo já se encontra derrotado. Não dormes. Tantos dias, tanta pressão, muito stresse. Pela manhã, pequeno-almoço, isto, autocarro, ou aquilo, corrida, duche, massagem, jantar, mais daquilo, são muitas coisas já... Recorre-se ao Prozac, ou à Floxetina, que são medicamentos que realmente provocam dependência.

Sobre isto não te vou mentir, porque estás na maior, falando depressa e bem. Eu tomava-os para as corridas, para as épocas, e depois do Tour fiquei num estado fastidioso. Fui ao médico de família porque estava desanimado. Receitou-me Prozac. Quando estava desanimado, depressivo, tomava sempre o Proza. Tenho receitas e justificações do médico. Daqui às drogas vai um passo. Não pode vir uma pessoa qualquer sem mais nem menos e acusar-me a mim de que sou um camelo do pó branco. Isso é muito forte.

publicado por Ubicikrista às 19:50

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