05 de Julho de 2010

FICÇÃO

Dos vários tipos de vingança, a do Chinês é a mais conhecida,

mas nada se compara à da mulher dos tremoços, In I

 

Os ciclistas parecem odiar o sexo, já que passam grande parte do tempo em cima dele, esmagando-o contra o selim. Mas a sério, o sexo do cilcista é assunto tabu e tão confidencial que ninguem se expõe. A exceção foi o Porta Bombas que disse uma vez não perceber a mulher de à uns anos para cá, quando entrou na menopausa. Com um curriculo tão vasto em doenças, nos momentos cruciais das batalhas corporais, não sabia se ela gemia de prazer ou das dores nas costas. Mas se não falam deles com as mulheres, falo eu de mim, pois seguramente também já vos aconteceu o mesmo.

Um gajo chega a casa e quer recompensá-las das ausências dos treinos. Mete a porcaria do Tony Carreira a tocar, e tal como dizem os CTT em relação ao código postal, é meio caminho andado. Uns amassos depois, como canta a Calcanhoto, e o melhor amigo do homem - não, não é o cão, isso é um mito - levanta-se sem precisar da voz do dono. È nessa altura que surge a desculpa de que a mãe nesse dia - mentira noite - está lá em casa a dormir. Mas não, desta vez não vamos aceitar essa desculpa mitica. Vamos ser mais originais. Retrocedamos então um pouco para  darmos voz á esposa: Oh querido!... agora não tenho vontade. Abraca-me só, pode ser? E diz-me isto com uma descontração na voz que só as mulheres sabem ter - e também já alguns homens. Serão mesmo homens? - ... Eu penso cá para mim: Ké? Ela completa o ramalhete sem ouvir a minha resposta com aquelas palavras femininas mágicas que todas(?) têm na ponta da língua:
- Vocês são todos iguais! Não percebem as necessidades sentimentais de uma mulher.

Porra,  eu nem sequer respondi porque ainda estava a engolir em seco e fora nessa fração de segundos que ela falou. Tá bem pronto, como dizia o meu pai,  “coisa” adiada é coisa perdida. Por mim conformo-me, mas á que tratar do melhor amigo do homem - ainda haverá por aí teimosos que insistam no cão? -  e uns minutos debaixo do chuveiro de agua fria, normaliza a situação.

Na manhã seguinte, quando abri a torneira da água quente e foi parar à fria por engano, passa-me um resquicio do sucedido pela espinha. E se desta vez eu não deixar passar, pensei. Porra, quem é que inventou esta história do duche. Ainda sinto a espinha fria. E eu que nem à tropa fui para me poder habituar a este ritual. Um dia tentarei descobrir como é que os esquimós se safam. Por agora vou mas é pensar numa solução retaliativa.

Nem de propósito. Daí a dois dias o grupo tinha agendado subir a Serra da Arrábida, depois vínhamos tomar banho ao clube Náutico. Almoço num restaurante já marcado e as imprescindíveis voltinhas pelas lojas de Setúbal. Imprescindíveis porquê, dirão. Para elas é como ir a Roma e não ver o Papa, senão durante toda a semana comíamos caldo verde com peixe frito ao jantar. Sabemo-lo bem porque já aconteceu com um ciclista do grupo, após subida à Serra da Estrela, que caiu na tentação de dizer que estava muito cansado e queria vir logo para casa por causa da longa viagem de regresso. Ela engoliu a afronta ao ver as outras esposas irem para as lojas, mas ele foi obrigado a pedir o divórcio alegando insanidade mental. E porquê, dirão ? Porque a partir desse dia e durante um ano até à separação, sempre que o Benfica perdia, ela servia-lhe caldo verde ao jantar.

Lá fomos então para as lojas. Entrámos numa grande superfície comercial - não no Arrábida Shopping, esse é no Porto - e eu fiquei a olhar para um pulsómetro e a pensar que um dia teria que reformar o meu antigo que mal se vê os números dos batimentos - na verdade sou eu que já vejo mais mal -, enquanto ela experimentava dois modelos caríssimos da Cartier
Como mulher que é, não conseguia decidir-se por nenhum e então, farto de estar ali, disse-lhe: Leva os dois querida. Depois olhou para uns sapatos de 270€ e disse-me que estava mesmo a precisar de calçado. Eu respondi que me parecia bem.
Fomos de seguida à secção de roupa, de onde saímos com 2 modelos Channel, uma encharpe de plumas Fátima Lopes e mais uma mala Ana Salazar. Ela estava tão entusiamada, quase semelhante áqueles momentos finais de intimidade. Aqui para nós penso que ela achava era que eu tinha enlouquecido com a altitude da serra, mas lá ia trazendo as compras todas atrás dela.
Num derradeiro esforço de lucidez ainda me pôs à prova quando me pediu uma saia curtíssima para jogar ténis... - nem correr sabe... quanto mais jogar ténis. Entrou em êxtase de tanta excitação quando lhe disse: compra tudo o que quiseres, meu amor.
Finalmente virou-se para mim: vem carinho, vem meu doce, meu sol da minha vida - e outras lamechices mágicas de todas as mulheres. Vamos à caixa pagar. Foi aí que, estando apenas uma pessoa à nossa frente na caixa, lhe disse:
- Oh amor!.. agora não tenho vontade de comprar tudo isto...

Bom, a cara dela só visto. Ficou pálida quando lhe disse. 'Abraça-me somente!' Parecia que ia desmaiar a qualquer momento. Ficou com um tique, na parte esquerda da sobrencelha direita, a vir ao de cima. Ainda balbuciou: KÉ? Respondi-lhe, magoado:''Vocês são todas iguais! Não sabem entender as necessidades financeiras de um homem''.

Eu sei que era dispensável, mas tinha que rematar a faiena, com 2 orelhas pelo menos, de uma forma que ainda hoje me dói a alma - tal como a agua fria no espinhaço -, só de pensar nisso:

- Este mês ainda tenho que comprar primeiro dois pneus slicks que aqueles já estão a ficar gastos.

(adaptado)

publicado por Ubicikrista às 23:12

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