02 de Outubro de 2009

Velhas glórias do ciclismo de garagem - 1

 

O maroto pisgou-se mesmo lá pra terra da maria. Disfrutemo-lo

 

publicado por Ubicikrista às 23:53

 

FICÇÃO

O NOVATO

Ao amigo Cunha de Aldeia Nova, em processo de reconciliação

- Daqui para a frente só médias de 33.

Há 2 meses que andavam a preparar a coisa. Treinos, gradualmente em crescendo, em pequenos grupos à terça e quinta-feira, de 80/90 kms e em conjunto, aos domingos de 100 até 130 e tal. Quem quisesse mais, podia mas só “em pedaleirinha” á quarta e ou à sexta.

A maioria vai e nem questiona, pois confia em quem decide. Principalmente aqueles acabadinhos de chegar, os chamados casadinhos de fresco, a este mundo das bicicletas. São uns cromos que querem ouvir tudo, não descolam. Querem saber dos andamentos leves, dos andamentos pesados, das rodas, do peso, da alimentação, das barritas encarnadas com sabor a pneu, dos crankes 172 e meio, dos compactes, dos rotores, dos novos Sram de 12 mudanças, dos carretos de 10 dentes, das pedaleiras ovalizadas … Ufa. Querem! Mas a única coisa que percebem verdadeiramente por enquanto é tão só os dias a que se anda e os kms a fazer.

O Volantino Inteiriço é um deles. Tem tanta vontade de aprender tudo que estranhou na última semana antes do Évorabike, ninguém falar em treinos. Abeirou-se á sucapa do velho chefe de fila, e em surdina  individualizando a coisa, aventurou-se:

- Não acredito que não treines antes de domingo.

Ora se estávamos a acabar o treino de quinta-feira, numa altura em que cada um vai para a sua casa e já descêramos da pedaleira grande, com as gambias em descompressão, pois este era o 3º treino que enfiáramos no bucho nessa semana, o que é que ele quereria? O mais velho do grupo já passara a mensagem de não se esquecerem de fazerem 2 ou 3 refeições de massa ou arroz, para acumular hidratos que dariam jeito dos 50 km para a frente.

Voltou à carga, insistindo na dele:

- Não me enganas. Não acredito que não faças mais nenhum treino até domingo.

Perante tanta insistência, em voz alta, para todos ouvirem, o atingido puxou dos galões e num assomo de liderança ofendida, rapidamente sprintou num fingimento meio zangado:

- O resto da semana é só médias de 33.

O novato ainda esboçou um ar de desconfiança, mas o velho chefe de fila deu a corrida por finda, acelerando para um final na questão.

- E só em circuito fechado.

Os novatos têm esta mania de nunca estarem satisfeitos. Levam sovas monumentais de kms. Mas como diz o Tiró Lenço, parece que engoliram uma bicicleta e a partir desse momento só ficam satisfeitos com mais e mais. Sejam treinos, conversas, bocas … querem é estar presentes em tudo. Têm medo de que algo fique pelo caminho que não consigam entender, seja um gesto, um olhar, uma indirecta. São piores que os velhos a jogar às cartas sempre á espera que o parceiro lhes dê sinal de bisca.

Percebe-se. Inteiriço já estivera tempo de mais afastado das lides das bicicletes. Quem é que imaginava que aos 50 anos podia vir a ter tanta importância, tanta atenção, tanto interesse … ele bem via os seus amigos da mesma idade para quem o único desporto conhecido, e convenientemente sentado, é o das damas, no tabuleiro. Mas ele julgava-se mais importante que os velhotes, pois era praticante assíduo de “mapling”. Uma espécie de tiro ao alvo que ele considera desporto e que se pratica a partir de um sofá com um comando na mão, que apontado para a televisão (em tempos tentara na direcção da sogra, a ver se esta lhe trazia uma cerveja fresca, mas sem resultado), pressionando num dos muitos botões nunca falha o alvo. E quando falha, de 6 em 6 meses, a culpa nunca é dele. É do aparelho. Então desculpa-se com as baterias e corre logo a substitui-las, como vê fazer aos treinadores com os jogadores do banco sempre que as coisas não correm bem. A prática diária e continuada desta actividade física originara-lhe uma lesão que por pouco não o levava a abandonar este desporto, estragando-lhe eventualmente uma carreira promissora. Foi durante um jogo do seu clube. Finalmente o golo apareceu. O seu contentamento foi tanto que levantou os braços para a frente a festejar. Quando se tentou sentar novamente, o sofá numa atitude de submissão canina – quiçá também de adepto – tinha avançado também na direcção da televisão. O impacto apanhou a poltrona pelo meio das costas, que pelas contas da lei da gravidade, fez o adepto do “descendente do Visconde” ficar momentaneamente a pairar entre o parapeito da janela a um palmo do chão, a cobiçar-lhe a nuca ou regresso á habitual posição de todos os dias. Podia ter pendido para quaisquer dos lados. Por fim safara-se o sofá, não obstante sentir uma manápula que quase lhe arrancava a pele, enquanto o dono deslizava suavemente até ao chão. Finalmente o comando aterrou, mas esse som foi abafado pelo grito alucinante de Inteiriço ao sentir um músculo a dar de si no braço acabado de posar no sofá. Rescaldo do acidente aéreo: o sofá jurou nunca mais se meter em manias de clubite. O parapeito, irá continuar a ter uma paixão platónica e de paciência alentejana por nucas. O comando, ao fim de anos finalmente sentira-se livre ao voar como um passarinho. Inteiriço durante meses não conseguiu que o músculo ofendido do braço lhe permitisse tocar no comando, para gáudio deste. (continua)

publicado por Ubicikrista às 03:33

FICÇÃO

O NOVATO

(continuação)

Ele bem conta a sua versão dos factos a todos os amigos alertando para os que queiram praticar este desporto perigoso:

- Façam “mapling” mas bloqueiem-lhe as rodas.

A verdade aqui para nós, é que ele, até aquela idade, não praticara nenhum desporto. Atirara até uns pontapés a uma bola em novo a meias com um vizinho gordo, de quem os outros gaiatos fugiam da companhia. Vira ao longos dos anos os colegas de trabalho inscreverem-se em actividades colectivas do Inatel, como o andebol, o basquete, o voleibol e até o atletismo, mas a ele nunca nenhum colega o convidara verdadeiramente, nem mesmo para fiscal de linha, nas jogatanas que antecediam as almoçaradas de Natal. Também porque é que haveriam de o convidar, nunca tivera jeito para desporto nenhum, para além de umas braçadas na quinzena de férias em Quarteira todos os verões. E mesmo esse pseudo-desporto era para tentar impressionar uma solteirona jeitosa que todos os anos na mesma altura, tinha como vizinha naquele toldo alugado por 2 semanas. Ele até reparava que a maioria das vezes, quando voltava do seu acto de bravura, as ditas braçadas, ela estava de olhos fechados enquanto esturricava o “corpo” - porque não sei se notaram é o que algumas donzelas têm – ao sol e nem reparara em tanta bravura, digo braçadura, que acabara de perder. Então durante alguns minutos para completar a faena, fazia-se ao sprint final, andando de um lado para outro, no espaço de 50 metros, junto ao areal, até o efeito do peito inchado desaparecer, mal sabendo que aquela subida peitoral que ele não controlava, mas que ostentava com tanta devoção, e que ano após ano se prolongava por mais tempo, se devia ao facto de, ao armar-se em nadador, mal conseguia respirar, dando origem a que o diafragma se manifestasse pelo brusco comportamento do seu dono naqueles 15 dias, e só naqueles. No resto do ano o diafragma poderia descansar do desporto.

Como desportista inapto como vimos (ou é inato, os Palops que resolvam. Pronto, não lhe digam, fica inepto) fez correr o boato de que era até simpatizante do Sporting para poder ser motivo de chacota dos colegas sempre que este perdia. Mas continuava a ouvir, cada vez com mais atenção para poder intervir nas conversas dos colegas, á espera de uma oportunidade. E não é que esse dia chegou.

Desde já algum tempo que reparara num ou noutro colega, digamos, assim a modos que desportista como ele, que vinham fazendo pequenas afirmações, extra futebol, do tipo:

- Olha este Domingo foram 70.

- Ah! Eu já fiz 40 e ainda me dói o rabo, mas foi só a 2ª vez.

Ao princípio ainda pensara, se algum deles andara na Casa Pia, depois em flexões enquanto entrecruzava mentalmente os indicadores das duas mãos para cima, para baixo e para os lados tentando decifrar a frase. Alto lá e pára o baile, pensou para ele, quando finalmente se apercebeu da coisa. Afinal ele em moço tinha tido um arrebenta cus daqueles. Mas nunca ninguém lhe dissera que andar de bicicleta valia como desporto. Grande coisa andar de bicicleta, vai mas é trabalhar como diz o outro. E insistia, grande coisa andar de bicicleta, qualquer pessoa sabe – com excepção do seu vizinho gordo, que a única coisa que sabia andar era de bola debaixo do braço, a mostrar-se, tipo prostituta em saldo (queriam, isso não existe pois não?). A partir desse dia ficou a saber que afinal sempre fora um desportista, não pagava era as quotas, assim como os católicos que não vão à igreja, mas são sócios desde a 1ª comunhão. Nem pediu conselho ao colega mais experimentado, sobre que “material” deveria adquirir. Daquele novo “desporto” percebia ele.

È com o orgulho, igual àquele, de quando saía da água com o peito inchado direito á tolha na praia, que o vemos todos o domingos, quer chova ou faça vento, pôr-se á frente do grupo a marcar andamento, sabendo que enquanto conseguir subir para uma bicicleta – nem que para lá chegar tenha de ir de bengala – nunca mais vai deixar de ser desportista.

Foi nessa altura que um dos mais veteranos do grupo desatou a rir.

- Ouviste bem o que o chefe disse?

Volantino Inteiriço ainda esboçou uma última desculpa.

-  Tá bem. Em circuito fechado ainda o percebo. Mas médias de 33, isso é andar muito.

O velho chefe de fila aparentando um ar chateado, achou que a coisa já tinha ido longe de mais no seu entender, resolveu puxar dum travão pondo fim aos ataques incessantes:

- É que as minis não levam tanto.

publicado por Ubicikrista às 03:30

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