01 de Outubro de 2009

Olá de novo,

Aqui vai a crónica do último brevet, creio que sairá melhor pois desta vez é mais recente... Amanhã se tiver tempo, relatar-vos-ei as nossas peripécias na Xacobeo.

Brevet 600 km para o París-Brest-París.

Partida no sábado 29 de maio às 6:00 AM. Saímos da parte oeste das Astúrias, e depressa se formam vários grupos. Eu e o meu primo Luís "acoplamo-nos" a um mini-pelotão que parece levar um ritmo só para machos de barba rija. Nós os cinco componentes, sincronizamo-nos e vamo-nos revezando harmoniosamente. Subimos a La Cabruñana num ritmo cómodo (para mim sobretudo, não para o Luís que lhe "sobram" forças). Na descida, pese embora o facto de que cada dia descer melhor, fico separado, mas o Luís, meu primo e anjo da guarda (rio-me eu do primo do Zumosol), levanta um pouco o pé e rapidamente me colo a eles. De imediato começamos a ascensão de Espina, de uns 14 km. Aqui, o Luís acelera um nadinha a marcha, o que faz com que fiquemos sós. Subimos ao nosso ritmo até lá acima e paramos na bomba de gasolina para carimbar a caderneta (carnet). É o primeiro controle do brevet, 59 km, a que chegamos às 8:30. Aproveitamos para comer e beber.

Esperamos o resto do grupo e iniciamos juntos a descida, volto a descolar e de novo o Luís ajuda-me a regressar ao grupo. Dizem-me que devo perder o medo. O que diriam se me chegassem a ver aqui há dois meses (descia MUITO pior que agora). Respondo-lhes que deveria levar o "90" pois ainda não cumpri um ano a andar de bicicleta e bastante já eu faço a descer a 50-60 km/h. Também o Luís é um novato, mas foi motoqueiro e domina INFINITAMENTE melhor que eu a bicicleta. Continuamos a rolar pela costa asturiana, zona de curvas a descer (parecido com um escorrega aquático), até que somos alcançados por três madrilenos (pergunto-me se conhecerão a orografia asturiana). Imagino que o motivo da sua participação seja a data, pois para dizer a verdade, prefiro fazer 700 km em Madrid que 600 km nas Astúrias. Vamos dando relevos até que numa das vezes do Luís ir puxar ficamos os três adiantados. O madrileno sacanea um bocado nos relevos e decido (que mau que eu sou...) a táctica para o descolar. Espero por uma subida e dou-lhe a vez de ir á frente, justamente para que se mantenha lá um bocado na frente, e ao chegar á subida começo a puxar e acelero progressivamente para que ele acuse o toque, até chegar á minhas 170 pulsações (200 de máx.) quando me dou conta, só estávamos o Luís e eu, o fulano desapareceu (mais tarde pagaria com juros a mina "maldade", talvez depois disto, haja alguém lá em cima...).

Encontramo-nos fortes, graças aos 800 km que fizemos na prova da Xacobeo, e como o meu joelho não protesta decidimos meter canha no andamento "até torcer" para ir ganhado tempo. Vamos dando relevos, sempre mais fortes os do Luís, (por alguma razão é o "routier" e eu o "grimpeur" da família, ainda que depois me ganhe também a subir, e ao não termos o vento contra subimos o ritmo até quase aos 30 km/h. Prosseguimos assim até San Tirso de Abres, lugar onde teremos o segundo controle. É no km 174 e chegamos às 12:30 PM, mais o menos. Carimbamos na bomba de gasolina, bebemos, comemos e pomos os pés ao léu pois o calor e os quilómetros já passam factura em forma de dor de pés.

Retomamos a marcha e continuamos tal como anteriormente, mas pouco antes de chegarmos a Vegadeo (fronteira com a Galiza, inicio da costa e km 190 do brevet) o meu joelho esquerdo começa a protestar (creio que se trata de uma tendinite na parte lateral externa da coxa - fascia lata, em latim -, entre a anca e o joelho, por incorrecta posição da travessa) aperto os dentes e não digo nada, mas de alguma coisa deve suspeitar o Luís, pois os meus relevos vão sendo cada vez mais curtos. Ao chegar a Vegadeo, começa o meu castigo (pela maldade) em forma de forte vento de frente soprando de Nordeste, que nos acompanhará durante umas centenas de kms ao longo de toda a costa asturiana, concretamente 280 km. Daí a poucos quilómetros, lá tenho que dizer ao Luís que baixe o pistão, devido às dores no joelho esquerdo que me impedem inclusive de ir na roda. Qual D. Quixote contra os moinhos de vento, o Luís luta bravamente durante horas contra ele, embora de vez em quando lhe dissesse que se resguardasse um pouco atrás de mim para recuperar, pese o facto de ir sempre com o 39x19 ou 39x21, pois o joelho não me permite meter mais pesado. Creio que já me alcunham de "marciano", não por estar muito forte como Indurain, mas porque ando sempre na "pedaleirinha" (prato pequeno de 39 dentes). Por volta das 7 da tarde, chegamos a Avilés, donde temos o terceiro controle, km 325. Ali, estão a descansar alguns companheiros do brevet. Como de costume, recuperamos energias e após um curto descanso continuamos a marcha. Antes de chegar a Gijón (km 350), o Luís sofre um furo que coincidiu com um dos meus escassos relevos e tinha tal passarão que, não obstante os avisos sonoros, demorei um bocado a aperceber-me. Depois de me alcançar, ajudo-o (pouco) a recuperar e continuamos até à bomba de gasolina de Veriña onde metemos pressão nas rodas.

Cerca das 9:30 atravessamos Gijón, e dado que a noite se nos caía em cima, decidimos jantar em Villaviciosa. Saindo de Gijón, numa zona de recta, o Luís alucina-se ao ver que lhe custava mover o 39x24, dado o forte vento contra. Subimos o Infanzón com esse vento de frente e cada vez menos luz, mas dá-nos tempo para descer com o entardecer e desfrutar de uma paisagem espectacular. A seguir, vem a subida a La Venta de las Ranas que fazemos a todo gás, pois está resguardada do vento. Para a descida, contamos já com pouca claridade, acendo a minha lanterna e mais mal que bem chegamos a Villaviciosa. Dirigimo-nos a uma pastelaria onde damos conta de várias coca-colas, dois cafés e oito mini-sandes. Uma menina algo despistada, encantada nas cores luminosas pede-nos um autógrafo, o Luís declina com um sorriso e diz-lhe: "Este aqui que te o assine, que é mais famoso", não tenho força nem para rir nem para recusar, e como posso, esgatafunho algo com a esferográfica ainda debaixo dos efeitos da pássara. Quem me ia dizer a mim que terminaria a assinar autógrafos... Yáh, yáh. Mal a cena acabou e perante a iminente modorra que já sentiamos, instalamos pilhas novas, ajustamos as luzes e retomamos a marcha.

Logo após abandonarmos a localidade de Villaviciosa, (algum dia comprovarei se esta vila é assim tão viçosa...) apanho com um buraco e cai-me a luz dianteira. Desço da bicicleta e pude comprovar como ela ficou na estrada, justamente onde costumam passar os rodados dos carros. Para desgraça minha, um automóvel dirige-se para ela. Alço os braços e faço-lhe sinais para que se desvie. Não sei se viu a lanterna, a mim ou o que sucedeu, mas o facto é que se desviou. Volto a coloca-la no volante e retomamos a marcha. Na ascensão à Venta do Probe (não, não era o "pobre" Miguel... que esse há muito tempo que não anda) outra vez o ditoso joelho, desta vez a dor torna-se quase insuportável, o que me obriga a meter o 25 e forçar o máximo a perna direita. Devido a isto, baixamos o ritmo da marcha e fazendo das tripas coração vamos para Ribadesella, após atravessar uma zona de curvas e contracurvas, com constante sobe e desce (certamente o que me fazia mesmo falta). Entre a obscuridade da noite e os carros que vão um pouco "pesados", isto converte-se num verdadeiro desporto de RISCO, é aqui que quero ver esses dos radicais que saltam das pontes com elásticos). Creio que a dor me impede de sentir o perigo. Numa descida antes de Ribadesella, parece-me ver um cão preto na berma, estranhamente permanece impassível, até que chego perto e... tinha cornos: era una cabra. Ou talvez seria o diabo espreitando-nos? Cada vez vou mais cansado e perto das 2:15 AM entramos na localidade de Ribadesella, km 419. Limito-me a pedalar, pois por o ter forçado, também me dói o joelho direito. O Luís adianta-se até á bomba de gasolina (local do quarto controle) e espera por mim ali. Quando chego, tiro o pé do pedal e ao apoiar a perna esquerda, perante a picada que me dá no joelho, decido que o melhor é deixar-me cair tal qual um saco de batatas. Assim fiz, e nem sequer me mexo, inclusive queria permanecer ali estendido no chão, ma o Luís ajuda-me a levantar. Após um momento de descanso dirigimo-nos ao carro que havíamos deixado estacionado ali, prevendo a necessidade de termos que dormir um pouco. Deixamos as bicicletas e carimbamos num bar em frente, pois a bomba de gasolina estava fechada. Com isto eram 2:30, metemo-nos no carro e dormimos até às 5:00 (por una vez na via, vim prevenido com um despertador).

Comemos uma ou outra barrita energética e dirigimo-nos até Unquera, fronteira com Cantábria ao km 470 do brevet. Ali queríamos desjejuar as famosas Corbatas (folhados) mas está tudo fechado. AH! Já me esquecia, as duas horas e meia de sono serviram para que deixasse de me doer o joelho, talvez alguém tenha tido piedade do meu sofrimento. Por precaução, decidi não forçar o resto da viagem, e não meti mais a pedaleira grande salvo nalguma descida. Continuamos viagem até Panes km 482, local do quinto controle, onde chegamos perto das 9:30. Carimbamos e tomamos o pequeno-almoço como feras perante a estupefacção dos hóspedes do hotel (tão cedo e já com uma passara).

Retomamos a viagem até Cangas de Onís, e como nos voltámos a dirigir para Oeste, esperávamos que o vento nordeste nos ajudasse um pouco. Para nosso infortúnio mudou e deixou de soprar (pelo menos não nos batia de frente). Chegamos ao Alto do Ortiguero, uma subida já com alguma importância uma vez que já levas 500 km nas pernas. Subimo-la com relativa comodidade (ao chegar a casa descobrimos porquê: perdemos 5 kg cada um. Isso explica tudo, com 59 kg sobe-se muito melhor mesmo com um joelho ressentido). Descemos a toda a gáspea e rapidamente chegamos a Cangas de Onís, km 536, onde temos o penúltimo controle. Carimbamos, recuperamos energias e continuamos. Volto a ficar tipo passarão perdido e não obstante engolir barrita atrás de barrita não consigo melhorar. Vamos a uma velocidade de cruzeiro de uns 25 km/h. Está um dia esplêndido de sol e calor, é meio-dia e sinto um escalafrío, reparo nos braços e ESTOU COM PELE DE GALINHA. Isto é um claro indício de que vou na reserva.

Passamos Arriondas km 546, vou pedalando como um autómato, tenho apenas energia, que gasto nas subidas, para pedalar de pé (assim o joelho incomoda-me menos). Paramos para descansar em Infiesto, e já falta menos. Sabemos que vamos conseguir, ainda que faltem algumas horas. Mais animados que nunca continuamos a marcha, dado que o terreno que falta é mais ou menos plano. Chegando a Colloto, na subida da Coca-Cola, passamos por um sitio onde há um "sprint pontuável" do clube. O Luís desafia-me e respondo-lhe que, tal como Indurain, deixo-lhe as vitorias parciais... YÁH, YÁH (a verdade é que mal me segurava na bicicleta, como poderia eu sprintar). Perante a minha nega, aproveitou a passagem de um autocarro e fez uma corrida atrás dele. Subiu a 35 km/h a inclinação e GANHOU! Tendo 600 km nas pernas... boa.

Finalmente, chegamos a Oviedo, km 610. Tenho uma enorme dor de pés, que se agrava ao parar em cada semáforo. Aguento como posso até chegar ao lugar de entrega das cadernetas e mal desço da bicicleta descalço imediatamente as sapatilhas. Assinamos as cadernetas, metemo-las por debaixo da porta e PROVA SUPERADA. São 15:30, sobraram-nos 6 horas e meia, (o fecho do controle era ás 22:00). Horas montados na bicicleta 26, a uma média de 23,5 km/h. Creio que é uma boa média, dado o forte vento de frente durante metade do percurso e os meus problemas com o joelho, que me impediram de ajudar mais o Luís nos relevos. Horas totais com paragens incluídas, 33:30, a uma média de 18 km/h. Por fim, já estamos classificados para o París-Brest-París. Mas isso será a 23 de Agosto... e com 1218 km... Uau.

publicado por Ubicikrista às 18:03

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