01 de Fevereiro de 2011

Se tu não esperas o inesperado, não o reconhecerás quando chegar

- Heraclito

Dirigiu-se para o ponto de encontro convencido que iria ter um domingo bastante prometedor. Confiava nos treinos realizados. Não havia vento, como gostava. O frio era o menos, pois mal a coisa apertasse, depressa se esquecia, mas não se aquecia, porque as regras obrigam a andar em grupo os 10 ou 20 primeiros kms.

Trama 1: Foi quando se começou a rolar bem e se fez a 1ª seleção, perto dos 30 km, que sentiu a bicicleta dum companheiro a seu lado bloquear. Pensou ser a corrente solta, mas era a pedaleira que estava a fazer contra rosca e ele não conseguia dar mais uma pedalada que fosse. Parou a seu lado e enroscou, manualmente as voltas possíveis a tampa do eixo, para este poder regressar a casa, só na roda pequena.

T.2: Chegou á paragem para café e já todos os outros estavam a sair para o percurso de regresso e seguiu com eles de imediato, sem se apear e sem beber o bendito café que ajuda a evitar cãibras a certos atletas.

T.3: Quando chegou a hora da verdade na zona de subida, ao levantar-se notou um furo na roda da frente, daqueles pequeninos em que dá para prosseguir parando de quando em vez para encher o pneu. Abrandou dos primeiros enquanto esperou pelo mais próximo companheiro de batalhas que o precedia, para prosseguirem num ritmo mais leve.

T.4: A meio da segunda subida importante do dia escutou uns ais de aflição no companheiro. Era uma cãibra das especiais. Daquelas na parte traseira da coxa de que nunca se lembra como se faz o alongamento, enquanto este aguarda ajuda permanecendo meio sentado, meio deitado na beira da estrada. De pé com as pernas meio curvadas é a melhor solução, lembrou-se finalmente.

E lá completou o percurso, mas com tanto atraso para quem tinha que ir votar ainda, após o banho e o almoço, não pressagiava coisa boa, a meio do dia.

T.5: Estreava o seu novo cartão de cidadão. Mas não pode votar de imediato. O cartão não tinha numero de eleitor visível, mas sim dentro do chip.

Este novo cartão, sem número de eleitor, recordou-lhe quando comprou a sua nova bicicleta que vinha sem pedais (agora vendem-nas assim para lhe tirar peso, dizem), que teve que comprar á parte. A analogia é clara: uma bicicleta sem pedais dá um jeitão, tal como um cartão sem número.

Os pedais não podem ser invisíveis, mas o numero de eleitor dentro do cartão de cidadão pode, está escondido dentro do chip, que pode ser lido por uma máquina.

T.6: Não havendo maquina, existiam ainda duas hipóteses para obter o dito numero!

T.7: Voltou a casa, ligou o computador e acedeu ao portal do eleitor. Como o portal não aguentou os 22 mil pedidos daquele minuto, pifou.

T.8: Enviou um SMS a pedir a informação do numero de eleitor, com um telemóvel emprestado, porque o seu não tinha serviço de mensagens.

Enquanto esperava lembrou-se dos meios utilizados pelos ditadores nos países africanos quando matam pessoas para as impedir de votar, ou no tempo do Salazar, que não enviavam os convites, sem os quais não se podia votar no partido único. Agora, olhando para o seu caso bastou dar um cartão de eleitor às pessoas para as impedir de votar. A verdade é que o número está lá, mas não está, quer dizer, está mas não se vê. Genial. Simples sem violência. Derrotados por saturação, melhor, tramados por saturação

Foi por estas e outras que o Sr. de Boliqueime obteve 52,94 % dos votos, mas perdeu para a abstenção que teve 53,27 %. Está mal, pensou, deveria haver 2ª volta para ver quem ganhava. Embora para ele o vencedor seria o representante da abstenção. Durante 5 anos não haveria presidente nem as inerentes despesas com o seu séquito. Se temos de poupar todos, começava-se por cima.

Sentiu-se lesado e pensou em processar o mecânico que montou o eixo da pedaleira na bicicleta do companheiro. Pensou em processar o personal training que prescreveu aquele plano de treinos personalizado ao outro companheiro. Pensou também em processar a funcionária que lhe deu aquele cartão de cidadão no registo civil, mas que não lhe disse que o número de eleitor estando lá, não se via.

Como a resposta ao seu SMS tardava, decidiu agir. Puxou do seu telemóvel e começou a preencher a agenda para o dia seguinte:

10 h – ir com o 1º companheiro para o ajudar a descarregar do tejadilho do jipe a bicicleta no mecânico, para colocação de uma rosca ou de um eixo que lhe iria custar entre 10 a 20 euros, se ainda se fabricarem.

18 h – ir com o 2º companheiro à aula de hidrobike para recuperação do ácido láctico que não chegou a acumular por causa do pneu semi-vazio

19 h – lembrar ao 2º companheiro para riscar do plano de treinos a máquina de musculação que lhe está a lixar os adutores

20 h – rodar apenas o pulso quando o professor mandar apertar a carga numa subida, na aula de cycle no ginásio.

22 h – verificar a farmácia de serviço para oferecer ao 2º companheiro umas ampolas bebíveis de magnésio, para debelar cãibras.

Nessa noite, já depois dos resultados finais da votação anunciados na televisão, interrompeu o jantar para acrescentar mais um afazer na sua agenda

11 h – escrever, com uma tinta especial fixa, no cartão, o número de eleitor cidadão que lhe chegara, já com as urnas fechadas, via  SMS, e solicitado à boca das urnas na hora de almoço.

publicado por Ubicikrista às 02:23

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