01 de Outubro de 2009

... ao contrário de tantos escritores duvidosos,

não melhoraram com a tradução...

 

Quando por brincadeira me propus traduzir algumas passagens para que nada nos faltasse em termos de conhecimentos, estava apenas a dar a primeira papa ao bebé. Traduzir é complicado – o meu prof. de comunicação dizia constantemente TRADUCTORE TRADITORE do latim, e que significa «tradutor, traidor» - acabamos sempre por meter a foice em seara alheia. Não o fiz propositadamente. Se a coisa não soa melhor é porque o tocador é fraco. Como alguém disse: «uma vez que não podemos obter o melhor, devemos contentar-nos com o medíocre». Calma, não tão radical, porque qualquer tradutor irá sempre meter a tal foice e com os seus conhecimentos, pôr-se na pele da pessoa que escreveu, recorrendo para tal à sua própria sensibilidade. É um pouco como quando um juiz tem de aplicar uma lei antiga. Tem que saber qual era o espírito do legislador na altura que este fabricou a lei. Como disse o outro: "Afortunadamente, o sociólogo não foi obrigado a fazer um striptease. Despiu-se apenas dos seus preconceitos e conheceu a verdade nua e crua". A-propósito, foi assim, como tradutor que Saramago começou. Não pretendo seguir estes passos, juro – como striper claro.

Ao tentar manter linearmente o espírito original de cada pessoa, detectam-se diferenças literárias entre crónicas: uns são apenas ciclistas com a mania das queixinhas (contam aos outros o que viram, o que é interessante) outros gostam de fazer brilhar a pena e de ciclismo sabem ainda pouco, embora alguns conciliam as duas coisas como verão adiante. Enfim, trocando por miúdos (como diria aquele pedófilo), intentemos por exemplo na palavra tirar. Significa para os espanhóis na gíria ciclista: meter todos os carretos possíveis e puxar que nem um desalmado até fazer descolar o pessoal todo. Para nós portugueses é apenas aliviar. Imaginem a cena no Pico de Veleta, na parte mais dura, eu a dizer a um dos nossos com insistência, tira, tira, i.é, para ele aliviar. E os espanhóis a verem aquele berreiro todo, olhavam, olhavam e nada acontecia. O homem não acelerava coisa nenhuma, não partia nada a loiça toda, tirava era uma mudança e ficávamos cada vez mais para trás. Bem feito, mais uns que ficaram a conhecer a genuína fibra dos alentejanos.

Outra situação com a mesma palavra aconteceu numa das partes mais duras do Marie Blanque (15%), como não conseguia avançar sem me apear comecei a dar meia volta para trás, descia uns metros, virava e continuava a subida. Numa destas manobras e como a estrada era estreita, espalhei-me da «chiba». Um espanhol que vinha a subir nas calmas ao passar por mim disse-me. «Tira la bici», isto é, «deita-a fora», como se ela me tivesse acabado de morder ou fosse a causa do meu sofrimento.

publicado por Ubicikrista às 12:04

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