01 de Outubro de 2009

Excerto da carta enviada pelo nosso leitor Ubicikrista, a proposito do artigo ´No inferno de El Torcal´, que considera dificil de descrever até mesmo lá indo.


"... 500 metros depois acabava a vila e aí meu Amigo é que a porca torce o rabo. Proliferavam escassamente já por ali muitos acompanhantes a dar alento aos ciclistas, do tipo:

- Força que só faltam 10 km.

O Folgas ficou tão animado que desceu da bicicleta imediatamente. Mais tarde viríamos a saber que o incentivo provocara quase o mesmo efeito no Rebocador. O Arreatas, esse, foi por ali acima que nem um leão com uma força moral impressionante. Mas como a força de leão só dura até ao Natal, quero dizer, a algumas centenas de metros até onde as senhoras tinham parado a carrinha, porque a partir daí era perigoso subir com tanta gente que vinha por ali abaixo, já de regresso do Torcal. A sua esperança era um pó milagroso que comprara no dia anterior num hipermercado, para actuar como suporte moral. Tinha um aspecto do tipo de uma lata de natas e que dizia glucose. Foi um espectáculo inolvidável, convido-o Amigo a puxar uma cadeirinha  e a assistir ao filme. È de borla, pago eu. A Luísa - extremosa esposa -  a querer dar-lhe água e ele sem  conseguir falar, dava uns passos para frente e para trás, parecendo encurralado. Tentava sentar-se ou encostar-se à carrinha, após a senhora lhe ter tirado a bicicleta da vista, para o outro lado da valeta. Dois minutos depois cheguei ao local do crime, simultaneamente com o Puto, que já tinha ido lá acima e estava mais fresco que uma alface acabada de ser apanhada do frigorifico. Deveria ser proibido ter esta idade, digo eu. Finalmente o homem conseguiu abrir a boca para gritar:

- O pó, dêem-me o pó. Está aqui homem, retorquiu a companheira!

- E a colher, onde meteste a colher mulher? E pumba, finalmente uma garfada para o bucho, com a colher claro.

A coisa começou a ficar hilariante. A glucose, como era em pó, colou-se à boca seca. O homem tentava respirar pelo nariz, mas o pó não ia para baixo, enquanto os pulmões protestavam em silencio surdo por mais aquele não solicitado sufoco tão agoniante quanto inesperado. Uma desgraça nunca vem só e se ali estivesse o ti Manel, meu pai, decerto diria:

- Não basta a minha mãe estar doente senão o meu pai ainda por cima.

De repente abriu a boca e metade do dito voou direito á porta, que estava aberta, do veículo estacionado, inundando os bancos dianteiros daquela murraça branca. O resto ficou nos cantos da boca a fazer lembrar aquela farinha com que em miúdos colávamos os cromos dos rebuçados, a mesma que as nossas mães nos davam para os destemperos intestinais. Parecia estuque. Felizmente hoje há o extralevure. Garanto-lhe Amigo que se ele não morreu desta, vai passar cá o milénio de certeza.

Mas oiça, o calvário não acaba aqui. O Puto ao ver aquele pai, foi benevolente ao dizer: é fácil até aí à frente onde tens uma recta e depois no fim é que é difícil. Pensei para mim,

- Caramba jovem onde é que apreendeste a ser tão bondoso para um velho moribundo? com que então difícil no fim! Se é no fim não faz mal. Mas é perto, antes ou depois do fim? não será ainda no durante?

O handicap era terrível. Já estava toda a gente a descer. E eu sem a Internet ali a jeito para meter no motor de busca a pergunta sacramental: como se ressuscita um morto?..."

publicado por Ubicikrista às 19:31

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