24 de Julho de 2011

FICÇÃO

Lá vinham eles (ele e ela) de novo para a serra, tentando apagar a má imagem do ano anterior e só esclarecida na véspera. Desta vez concordaram em vir com o grupo de madrugada e não um dia antes em carro próprio e dormida. Juntaram-se ambos com outro casal e outro ciclista para preencherem os cinco lugares disponíveis, além dos três restantes no tejadilho, mas esses a serem ocupados pelas bicicletas. Como não há centros comerciais na zona ela concordara almoçar com o grupo depois de dar uma volta pela serra com a outra companheira enquanto eles não voltassem da sua odisseia. Tentariam assim regressar ao lar ainda com luz do dia, após o repasto. Para lá, tal como no ano anterior, conduzira ele. Para cá como sempre conduzia ela, pois ele decerto como sempre acumularia o eventual excesso de bebida do almoço com o inevitável esforço das subidas.

Não fora assim no ano anterior, ao decidirem ir de véspera e ficarem num hotel de Seia com jantar tardio, pois o trabalho de ambos só os libertara depois das cinco e meia, mais a viagem longa. Ela quando se acabou de arranjar e regressou ao quarto encontrou-o na cama já a dormir. Ainda o tentou acordar, em vão. Lá se fora a noite romântica que ela tão bem planeara na Internet dias antes. Daqui em diante ela resumiria este facto a uma questão de gosto (amor):

- Já não me amas!

E trazia à baila o assunto daquele dia nos momentos íntimos ao longo dos outros 364 do ano. Ele ouvia e não dando demasiada importância ao caso raramente se defendia, porque para ele apenas adormecera. Ela insistia e ele uma ou outra vez lá referia a dureza dos treinos dos dias anteriores acumulada com a viagem e de como o sol a bater de lado o cansara devido à avaria da pala, isto numa semana carregada de pressão no emprego com a chegada de um novo chefe.

Quando a oportunidade espreitava, lá surgia ela com a tal frase rebatida. Um dia ao referir mais uma vez que se gostasse dela não se teria deixado dormir, foi um pouco mais longe ao mencionar que ele nem reparara que levara com ela um body, ao que ele retorquiu com alguma rudeza, Que esperava que dele (do bode) tivesse feito bom proveito. Mas ela nem ligou à resposta e voltaria mais vezes ao mesmo, até que no dia anterior à nova viagem ele achou que era de mais e exasperou-se:

- Já não te amo? Deves-te lembrar do ano passado no regresso durante a noite te ter colocado a mão por cima do ombro à saída do Fundão enquanto conduzias. Calculo que pensaste que era para me desculpar da noite anterior, mas foi apenas para te abanar e acordar sem sobressaltos, porque ias a dormir ao volante. E só porque adormeceste é por isso que me amas menos? Dizes-me que não é a mesma coisa, que não tem nada a ver, que só passaste pelas brasas, que só fechaste os olhos por um momento. Então eu repito: só porque te deixaste dormir com o carro a 90 km/h será que também já não me amas? E os teus pais que vinham no banco detrás, presumo que também já não gostas deles.

Ao gabriel pela ousadia e ao

 rosado pela anual teimosia

publicado por Ubicikrista às 22:20

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