01 de Outubro de 2009

FICÇÃO

A Asma e a Lesma

“Quando preciso de estar sozinho vou para os transportes públicos em hora de ponta”, I

Prólogo…

Aqui estou eu sentado á espera que me venham buscar. Nem sequer estou cansado. E o que eu treinei para aqui chegar. À partida deram-me um mapa que me indica para andar 5 km em frente, na próxima rotunda vire na terceira saída á direita e ande mais 50 km pela estrada nacional não sei quantas. Sempre em frente. Não há que enganar, não fora o facto de aquele mapa não ser daquela estrada. O melhor é fazer contas à vida. Mas primeiro vai uma mijinha, como os profissionais antes de irem ao controlo. Desde pequenino que tenho uma infecção urinaria, e não desde há 2 anos como o Sérgio Paulino com a asma (bué de atletas de todas as modalidades sofrem deste mal, que se trata inalando salbutamol, salmeterol ou terbutalina), como tal preciso de um medicamento que qualquer doutor veterinário passa (a receita para um animal doente lá de casa pode ser abatido no IRS - a sogra conta, claro), chamado furandantine que me ajuda nos dias difíceis (não, não é para esses sítios onde estão a pensar) e também me ilude a ter mais força muscular e a baixar o índice de gordura.

A malta amiga chama-me o Praga Multas e lá saberão porquê. E aviso já de que não gosto de dias de sol muito quente, de vento, de estradas ruins, nem de paralelos (muito menos quando mos atiravam à cabeça em miúdo). Mas o que me irrita mais a partir de Janeiro é as lesmas que se encontram pelo caminho e que se colam às rodas, pneus e quadros, que depois de secas ficam negras. A gente pensa que é sujidade ou alcatrão da estrada. Só saem da bicicleta a martelo e escopo. E então quando chove, são às dezenas na estrada. Passo a vida a fazer gincana para não lhes acertar. Esta obsessão é tanta que me parece que os outros ciclistas estão sempre a falar nesta palavra, que para mim é palavrão (os galegos até usam o carago em vez da virgula). Mas uma coisa sei eu, quando chega alguém de fora do grupo avisam-no logo: Desvia-te das lesmas, não as pises, etc.

Aqui estou eu num destes passeios ao Algarve de 200 kms, no meio de 500 gajos. Nem sei se gosto ou não. Pelo sim pelo não, vim. A minha mulher quando me conheceu, e a convidei a passear, ficou sem saber o que fazer ou dizer. Foi a mãe que a aconselhou, que para conquistar um homem qualquer mulher precisa apenas de ter sex-appeal. Mais tarde confessou-me, que como não sabia o que era aquilo, pelo sim pelo não, lavou-se por baixo.

Hoje safei-me de um acidente (Um? Recordo-me uma vez, aqui à anos, quando a mulher me ligou a dizer para ter cuidado que havia um louco na TV a guiar em sentido contrario, na zona onde eu andava na distribuição. Um, disse-lhe eu na altura, havias de ter visto, eram ás dezenas – desconfio que o policia que me multou sem razão foi só para se exibir na televisão), mas se o tivesse tido já não teria os próximos percalços. Foi no inicio da subida da serra do Cançakostas, levantei-me do selim e baixei ligeiramente o andamento, para começar a marcar o meu ritmo que me costuma rebocar até lá a cima, nem olhei para trás, mas só ouvi trás, catrapás, ói, ui, fosga-se, cabrão de merda, etc. Pareceu-me ouvir ferro a bater com alumínio ou carbono. Devo ter feito confusão pois não vi nenhuma oficina ali por perto. Não sei ao certo o que se teria passado, pois não costumo olhar para trás nas subidas, aliás nem para a frente, para não me assustar com o que falta, pois gosto de ir no meu ritmo.

O percalço seguinte não foi bem numa subida, foi antes num plano inclinado. Mas a estrada estava tão ruim no meio que resolvi mudar de repente para a berma da direita. Voltei a ouvir as mesmas palavras duns malcriados, mas desta vez já não ouvi ruído de material a bater. Coisa estranha isto só acontecer mal se começa a subir uma chapada.

Passámos por um povoado onde estava um fogueteiro a desfazer-se, calculo, do material em excesso (tempos de crise) que ninguém lhe comprou este verão e que ele tinha reservado para umas florestas. È que aquele material vale ouro para os bombeiros, pois mal dão por um a arder no campo, avisam-se uns aos outros e correm logo a tentar apagá-lo antes que arda todo. Desconfio que fazem colecção. Deve ser como um primo meu com os selos. Diz ele que só têm valor depois de usados com o carimbo por cima. Novos não prestam. Manias de coleccionadores. Ou então deviam estar a festejar a nossa passagem. Já não devia haver ciclismo por aquelas bandas há muito tempo, daí o motivo para uma festa daquelas. Lá me disseram que o presidente da junta nem concordara, pois gostava mais de ver pernas de mulher que de ciclistas. Não sei porquê jack as nossas têm menos pelos que as de algumas mulheres. Por falar em pernas, as melhores que provei até hoje foram as de râ.

Entusiasmei-me tanto a olhar para cima, a ver as canas rebentarem, que só desviei o olhar quando ouvi o pneu a imitar o meu gato quando lhe pisam o rabo, nessa altura vi uma cerca de arame farpado debaixo da bicicleta, a metro e meio da estrada. De onde é que ela teria vindo? Parei para mudar a câmara-de-ar, mas a válvula era tão pequena e mixuruca que no aro da roda só lhe aparecia a cabecita. Ao fim de minutos a dar ar ao aro, quase ficava com uma roda daquelas lenticulares, que me daria jeito com o vento lateral. (Continua)

publicado por Ubicikrista às 23:21

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