18 de Outubro de 2009

Exibida a certidão de óbito com chancela pelo próprio punho,  a bagunça* da Caparica, após perecimento prematuro - morreu de infantilidade com 4 anos apenas - deixou escola. Não obstante a desordem, o andamento foi vivo.

3 regras básicas:

  • Quando não há bermas forma-se 2 filas - 1 puxa, outra resguarda-se

  • A 3ª fila ou lado esquerdo, é só para atacar

  • O traço contínuo não é berma

Facto: é só ciclistas de ataque

*confusão, desordem, balbúrdia, mistura desordenada, desarumação

 

publicado por Ubicikrista às 23:51

14 de Outubro de 2009

Exmo. Senhor,

Por motivos operacionais e aos quais a Fundação INATEL é completamente alheia, informamos V. Exa. que apesar dos inúmeros esforços para a realização do mesmo este será cancelado.

Grato pela sua compreensão,

Com os estimados cumprimentos,

Carlos Borralheira
Director Agência de Évora

 

Do provedor da prova, recebi este mail terça-feiras às 14.18 h.

Deixo os comentários convosco, mas... quem adiou uma e vez, e outra...

 

Obs: Este email e todos os acontecimentos que o precedem, traz-nos á memoria outros factos premonitórios passados, tornando inevitável este desfecho, como se pode Ler aqui nesta crónica ficcionada na altura.

O Administrador do Blogue.

publicado por Ubicikrista às 08:13

02 de Outubro de 2009

 

FICÇÃO

O NOVATO

Ao amigo Cunha de Aldeia Nova, em processo de reconciliação

- Daqui para a frente só médias de 33.

Há 2 meses que andavam a preparar a coisa. Treinos, gradualmente em crescendo, em pequenos grupos à terça e quinta-feira, de 80/90 kms e em conjunto, aos domingos de 100 até 130 e tal. Quem quisesse mais, podia mas só “em pedaleirinha” á quarta e ou à sexta.

A maioria vai e nem questiona, pois confia em quem decide. Principalmente aqueles acabadinhos de chegar, os chamados casadinhos de fresco, a este mundo das bicicletas. São uns cromos que querem ouvir tudo, não descolam. Querem saber dos andamentos leves, dos andamentos pesados, das rodas, do peso, da alimentação, das barritas encarnadas com sabor a pneu, dos crankes 172 e meio, dos compactes, dos rotores, dos novos Sram de 12 mudanças, dos carretos de 10 dentes, das pedaleiras ovalizadas … Ufa. Querem! Mas a única coisa que percebem verdadeiramente por enquanto é tão só os dias a que se anda e os kms a fazer.

O Volantino Inteiriço é um deles. Tem tanta vontade de aprender tudo que estranhou na última semana antes do Évorabike, ninguém falar em treinos. Abeirou-se á sucapa do velho chefe de fila, e em surdina  individualizando a coisa, aventurou-se:

- Não acredito que não treines antes de domingo.

Ora se estávamos a acabar o treino de quinta-feira, numa altura em que cada um vai para a sua casa e já descêramos da pedaleira grande, com as gambias em descompressão, pois este era o 3º treino que enfiáramos no bucho nessa semana, o que é que ele quereria? O mais velho do grupo já passara a mensagem de não se esquecerem de fazerem 2 ou 3 refeições de massa ou arroz, para acumular hidratos que dariam jeito dos 50 km para a frente.

Voltou à carga, insistindo na dele:

- Não me enganas. Não acredito que não faças mais nenhum treino até domingo.

Perante tanta insistência, em voz alta, para todos ouvirem, o atingido puxou dos galões e num assomo de liderança ofendida, rapidamente sprintou num fingimento meio zangado:

- O resto da semana é só médias de 33.

O novato ainda esboçou um ar de desconfiança, mas o velho chefe de fila deu a corrida por finda, acelerando para um final na questão.

- E só em circuito fechado.

Os novatos têm esta mania de nunca estarem satisfeitos. Levam sovas monumentais de kms. Mas como diz o Tiró Lenço, parece que engoliram uma bicicleta e a partir desse momento só ficam satisfeitos com mais e mais. Sejam treinos, conversas, bocas … querem é estar presentes em tudo. Têm medo de que algo fique pelo caminho que não consigam entender, seja um gesto, um olhar, uma indirecta. São piores que os velhos a jogar às cartas sempre á espera que o parceiro lhes dê sinal de bisca.

Percebe-se. Inteiriço já estivera tempo de mais afastado das lides das bicicletes. Quem é que imaginava que aos 50 anos podia vir a ter tanta importância, tanta atenção, tanto interesse … ele bem via os seus amigos da mesma idade para quem o único desporto conhecido, e convenientemente sentado, é o das damas, no tabuleiro. Mas ele julgava-se mais importante que os velhotes, pois era praticante assíduo de “mapling”. Uma espécie de tiro ao alvo que ele considera desporto e que se pratica a partir de um sofá com um comando na mão, que apontado para a televisão (em tempos tentara na direcção da sogra, a ver se esta lhe trazia uma cerveja fresca, mas sem resultado), pressionando num dos muitos botões nunca falha o alvo. E quando falha, de 6 em 6 meses, a culpa nunca é dele. É do aparelho. Então desculpa-se com as baterias e corre logo a substitui-las, como vê fazer aos treinadores com os jogadores do banco sempre que as coisas não correm bem. A prática diária e continuada desta actividade física originara-lhe uma lesão que por pouco não o levava a abandonar este desporto, estragando-lhe eventualmente uma carreira promissora. Foi durante um jogo do seu clube. Finalmente o golo apareceu. O seu contentamento foi tanto que levantou os braços para a frente a festejar. Quando se tentou sentar novamente, o sofá numa atitude de submissão canina – quiçá também de adepto – tinha avançado também na direcção da televisão. O impacto apanhou a poltrona pelo meio das costas, que pelas contas da lei da gravidade, fez o adepto do “descendente do Visconde” ficar momentaneamente a pairar entre o parapeito da janela a um palmo do chão, a cobiçar-lhe a nuca ou regresso á habitual posição de todos os dias. Podia ter pendido para quaisquer dos lados. Por fim safara-se o sofá, não obstante sentir uma manápula que quase lhe arrancava a pele, enquanto o dono deslizava suavemente até ao chão. Finalmente o comando aterrou, mas esse som foi abafado pelo grito alucinante de Inteiriço ao sentir um músculo a dar de si no braço acabado de posar no sofá. Rescaldo do acidente aéreo: o sofá jurou nunca mais se meter em manias de clubite. O parapeito, irá continuar a ter uma paixão platónica e de paciência alentejana por nucas. O comando, ao fim de anos finalmente sentira-se livre ao voar como um passarinho. Inteiriço durante meses não conseguiu que o músculo ofendido do braço lhe permitisse tocar no comando, para gáudio deste. (continua)

publicado por Ubicikrista às 03:33

FICÇÃO

O NOVATO

(continuação)

Ele bem conta a sua versão dos factos a todos os amigos alertando para os que queiram praticar este desporto perigoso:

- Façam “mapling” mas bloqueiem-lhe as rodas.

A verdade aqui para nós, é que ele, até aquela idade, não praticara nenhum desporto. Atirara até uns pontapés a uma bola em novo a meias com um vizinho gordo, de quem os outros gaiatos fugiam da companhia. Vira ao longos dos anos os colegas de trabalho inscreverem-se em actividades colectivas do Inatel, como o andebol, o basquete, o voleibol e até o atletismo, mas a ele nunca nenhum colega o convidara verdadeiramente, nem mesmo para fiscal de linha, nas jogatanas que antecediam as almoçaradas de Natal. Também porque é que haveriam de o convidar, nunca tivera jeito para desporto nenhum, para além de umas braçadas na quinzena de férias em Quarteira todos os verões. E mesmo esse pseudo-desporto era para tentar impressionar uma solteirona jeitosa que todos os anos na mesma altura, tinha como vizinha naquele toldo alugado por 2 semanas. Ele até reparava que a maioria das vezes, quando voltava do seu acto de bravura, as ditas braçadas, ela estava de olhos fechados enquanto esturricava o “corpo” - porque não sei se notaram é o que algumas donzelas têm – ao sol e nem reparara em tanta bravura, digo braçadura, que acabara de perder. Então durante alguns minutos para completar a faena, fazia-se ao sprint final, andando de um lado para outro, no espaço de 50 metros, junto ao areal, até o efeito do peito inchado desaparecer, mal sabendo que aquela subida peitoral que ele não controlava, mas que ostentava com tanta devoção, e que ano após ano se prolongava por mais tempo, se devia ao facto de, ao armar-se em nadador, mal conseguia respirar, dando origem a que o diafragma se manifestasse pelo brusco comportamento do seu dono naqueles 15 dias, e só naqueles. No resto do ano o diafragma poderia descansar do desporto.

Como desportista inapto como vimos (ou é inato, os Palops que resolvam. Pronto, não lhe digam, fica inepto) fez correr o boato de que era até simpatizante do Sporting para poder ser motivo de chacota dos colegas sempre que este perdia. Mas continuava a ouvir, cada vez com mais atenção para poder intervir nas conversas dos colegas, á espera de uma oportunidade. E não é que esse dia chegou.

Desde já algum tempo que reparara num ou noutro colega, digamos, assim a modos que desportista como ele, que vinham fazendo pequenas afirmações, extra futebol, do tipo:

- Olha este Domingo foram 70.

- Ah! Eu já fiz 40 e ainda me dói o rabo, mas foi só a 2ª vez.

Ao princípio ainda pensara, se algum deles andara na Casa Pia, depois em flexões enquanto entrecruzava mentalmente os indicadores das duas mãos para cima, para baixo e para os lados tentando decifrar a frase. Alto lá e pára o baile, pensou para ele, quando finalmente se apercebeu da coisa. Afinal ele em moço tinha tido um arrebenta cus daqueles. Mas nunca ninguém lhe dissera que andar de bicicleta valia como desporto. Grande coisa andar de bicicleta, vai mas é trabalhar como diz o outro. E insistia, grande coisa andar de bicicleta, qualquer pessoa sabe – com excepção do seu vizinho gordo, que a única coisa que sabia andar era de bola debaixo do braço, a mostrar-se, tipo prostituta em saldo (queriam, isso não existe pois não?). A partir desse dia ficou a saber que afinal sempre fora um desportista, não pagava era as quotas, assim como os católicos que não vão à igreja, mas são sócios desde a 1ª comunhão. Nem pediu conselho ao colega mais experimentado, sobre que “material” deveria adquirir. Daquele novo “desporto” percebia ele.

È com o orgulho, igual àquele, de quando saía da água com o peito inchado direito á tolha na praia, que o vemos todos o domingos, quer chova ou faça vento, pôr-se á frente do grupo a marcar andamento, sabendo que enquanto conseguir subir para uma bicicleta – nem que para lá chegar tenha de ir de bengala – nunca mais vai deixar de ser desportista.

Foi nessa altura que um dos mais veteranos do grupo desatou a rir.

- Ouviste bem o que o chefe disse?

Volantino Inteiriço ainda esboçou uma última desculpa.

-  Tá bem. Em circuito fechado ainda o percebo. Mas médias de 33, isso é andar muito.

O velho chefe de fila aparentando um ar chateado, achou que a coisa já tinha ido longe de mais no seu entender, resolveu puxar dum travão pondo fim aos ataques incessantes:

- É que as minis não levam tanto.

publicado por Ubicikrista às 03:30

01 de Outubro de 2009

FICÇÃO

A Asma e a Lesma

“Quando preciso de estar sozinho vou para os transportes públicos em hora de ponta”, I

Prólogo…

Aqui estou eu sentado á espera que me venham buscar. Nem sequer estou cansado. E o que eu treinei para aqui chegar. À partida deram-me um mapa que me indica para andar 5 km em frente, na próxima rotunda vire na terceira saída á direita e ande mais 50 km pela estrada nacional não sei quantas. Sempre em frente. Não há que enganar, não fora o facto de aquele mapa não ser daquela estrada. O melhor é fazer contas à vida. Mas primeiro vai uma mijinha, como os profissionais antes de irem ao controlo. Desde pequenino que tenho uma infecção urinaria, e não desde há 2 anos como o Sérgio Paulino com a asma (bué de atletas de todas as modalidades sofrem deste mal, que se trata inalando salbutamol, salmeterol ou terbutalina), como tal preciso de um medicamento que qualquer doutor veterinário passa (a receita para um animal doente lá de casa pode ser abatido no IRS - a sogra conta, claro), chamado furandantine que me ajuda nos dias difíceis (não, não é para esses sítios onde estão a pensar) e também me ilude a ter mais força muscular e a baixar o índice de gordura.

A malta amiga chama-me o Praga Multas e lá saberão porquê. E aviso já de que não gosto de dias de sol muito quente, de vento, de estradas ruins, nem de paralelos (muito menos quando mos atiravam à cabeça em miúdo). Mas o que me irrita mais a partir de Janeiro é as lesmas que se encontram pelo caminho e que se colam às rodas, pneus e quadros, que depois de secas ficam negras. A gente pensa que é sujidade ou alcatrão da estrada. Só saem da bicicleta a martelo e escopo. E então quando chove, são às dezenas na estrada. Passo a vida a fazer gincana para não lhes acertar. Esta obsessão é tanta que me parece que os outros ciclistas estão sempre a falar nesta palavra, que para mim é palavrão (os galegos até usam o carago em vez da virgula). Mas uma coisa sei eu, quando chega alguém de fora do grupo avisam-no logo: Desvia-te das lesmas, não as pises, etc.

Aqui estou eu num destes passeios ao Algarve de 200 kms, no meio de 500 gajos. Nem sei se gosto ou não. Pelo sim pelo não, vim. A minha mulher quando me conheceu, e a convidei a passear, ficou sem saber o que fazer ou dizer. Foi a mãe que a aconselhou, que para conquistar um homem qualquer mulher precisa apenas de ter sex-appeal. Mais tarde confessou-me, que como não sabia o que era aquilo, pelo sim pelo não, lavou-se por baixo.

Hoje safei-me de um acidente (Um? Recordo-me uma vez, aqui à anos, quando a mulher me ligou a dizer para ter cuidado que havia um louco na TV a guiar em sentido contrario, na zona onde eu andava na distribuição. Um, disse-lhe eu na altura, havias de ter visto, eram ás dezenas – desconfio que o policia que me multou sem razão foi só para se exibir na televisão), mas se o tivesse tido já não teria os próximos percalços. Foi no inicio da subida da serra do Cançakostas, levantei-me do selim e baixei ligeiramente o andamento, para começar a marcar o meu ritmo que me costuma rebocar até lá a cima, nem olhei para trás, mas só ouvi trás, catrapás, ói, ui, fosga-se, cabrão de merda, etc. Pareceu-me ouvir ferro a bater com alumínio ou carbono. Devo ter feito confusão pois não vi nenhuma oficina ali por perto. Não sei ao certo o que se teria passado, pois não costumo olhar para trás nas subidas, aliás nem para a frente, para não me assustar com o que falta, pois gosto de ir no meu ritmo.

O percalço seguinte não foi bem numa subida, foi antes num plano inclinado. Mas a estrada estava tão ruim no meio que resolvi mudar de repente para a berma da direita. Voltei a ouvir as mesmas palavras duns malcriados, mas desta vez já não ouvi ruído de material a bater. Coisa estranha isto só acontecer mal se começa a subir uma chapada.

Passámos por um povoado onde estava um fogueteiro a desfazer-se, calculo, do material em excesso (tempos de crise) que ninguém lhe comprou este verão e que ele tinha reservado para umas florestas. È que aquele material vale ouro para os bombeiros, pois mal dão por um a arder no campo, avisam-se uns aos outros e correm logo a tentar apagá-lo antes que arda todo. Desconfio que fazem colecção. Deve ser como um primo meu com os selos. Diz ele que só têm valor depois de usados com o carimbo por cima. Novos não prestam. Manias de coleccionadores. Ou então deviam estar a festejar a nossa passagem. Já não devia haver ciclismo por aquelas bandas há muito tempo, daí o motivo para uma festa daquelas. Lá me disseram que o presidente da junta nem concordara, pois gostava mais de ver pernas de mulher que de ciclistas. Não sei porquê jack as nossas têm menos pelos que as de algumas mulheres. Por falar em pernas, as melhores que provei até hoje foram as de râ.

Entusiasmei-me tanto a olhar para cima, a ver as canas rebentarem, que só desviei o olhar quando ouvi o pneu a imitar o meu gato quando lhe pisam o rabo, nessa altura vi uma cerca de arame farpado debaixo da bicicleta, a metro e meio da estrada. De onde é que ela teria vindo? Parei para mudar a câmara-de-ar, mas a válvula era tão pequena e mixuruca que no aro da roda só lhe aparecia a cabecita. Ao fim de minutos a dar ar ao aro, quase ficava com uma roda daquelas lenticulares, que me daria jeito com o vento lateral. (Continua)

publicado por Ubicikrista às 23:21

Ficção


A Asma e a Lesma

 

(continuação)

Ao fim de minutos a dar ar ao aro, quase ficava com uma roda daquelas lenticulares, que me daria jeito com o vento lateral.

Quando acabei, nem ciclistas, nem carro de apoio ou vassoura, nem o raio que os parta. Mas lá fui atrás deles, até que cheguei a um sítio onde as estradas, segundo a poesia arquitectónica dos senhores engenheiros construtores, se enlaçam umas nas outras que nem uns amantes, vindas de todos os lados para confluir numa rotunda. Aqui para nós que ninguém nos ouve, as rotundas, parece uma ideia tirada daqueles filmes com uma fulana no meio, rodeada de homens nus, todos com os sinais de trânsito devidamente a confluir também para ela. Deveriam ser proibidas estas insinuações pornográficas na via pública. Onde é que estes arquitectos estavam com a cabeça? Inspirações na Internet de certeza. Aqui á 30 anos não deixavam fazer arte deste calibre na estrada. Ainda perguntei a um brasileiro daqueles que vendem férias se já passaram os ciclistas:

-Há que tempos homem. O que é que você esteve fazendo. Cagando?

Caganda lata, pensei cá para mim. E eu que sou um apreciador da simpatia brasileira. Sim, pá Tia talveiz, ainda o ouvi dizer.

Aqui estou eu 2 km mais á frente sentado num muro. O que é que eu vou fazer á minha vida? Tenho aqui uns contactos no telefone, mas de que me servem se não se conseguem ver de dia com esta claridade toda. O único numero que sei de cor é o da minha sogra, pois era para lá que a minha ex dizia que ia, sempre que saía de casa toda aperaltada – agora que nos separámos quem passa lá o tempo todo sou eu, mas só por causa dos netos. E da comida, confesso. Vou ligar a avisar, já que não sei onde estou, para não esperarem por mim para jantar.

Pois é, a minha ex agora tem um enteado novato. Ela disse-me que o estado lhe dá 200 aerios para ele não trabalhar. Ainda assim muito inferior ao que ganha o pai dele (236) de reforma por ter andado toda a vida, imaginem, a trabalhar.

O gajo quis espetar um piercing para valorizar o desemprego, mas disseram-lhe que a lei não lho permite. Mais sorte teve a irmã ao espetaram-lhe uma agulha para um aborto, mas isso já a lei autoriza.

O pai dele tentou fechar uma janela que dá para as traseiras onde 2 pombinhos (eu não disse um pombo e uma pomba) passam o dia a fazer marmelada (oxalá que não seja para a venderem em cubos) mas não deixam, porque isso é fazer obras. Mais sorte teve o tio dele, no ano passado quando foi despedido da fábrica, e lhe ficaram com a casa, juntou-se a outros nas mesmas condições e vá de construir umas barracas. Aquilo já parece um bairro, mas não há problema, não é considerado obras.

Eu também tenho um filho adolescente menor, que para não ficar a polir o sofá lá de casa ou na luta de 5x1 levava-o para me ajudar nas distribuições, mas o puto não pode andar comigo deste que apanhei uma multa, pois 2 funcionários do ministério na sei do quê, consideram isso trabalho infantil. Mais sorte teve a minha ex com o nosso puto de 6 anos. O gaiato tem mesmo jeito para contar anedotas. A mãe até já largou o emprego e acompanha-o até às 2 e 3 da manhã por essas terreolas do país ao fim de semana. Diz ela que ele gosta de adormecer encostado ao peito. Também eu gostava e mesmo assim deixou-me. Sacana do puto até nisto me ganha. O que me alegra é que ele não ganha só a mim, ganha para todos nós.

Quem também ganhou foi o que deixou de ir comigo. Ganhou uma chapada, estava a pedi-las. Agora querem-mo tirar por violência doméstica. Um colega dele lá da escola matou o pai, mas nem pode ir a tribunal, porque é menor.

Eu bem digo à mãe que tenho muitos gastos com ele, sobretudo seringas para uma doença hereditária, que o malandro apanhou não sei de quem e que na farmácia me custa 100 mil reis dos antigos (50 cêntimos). È preciso azar porque o filho da vizinha de cima, como é drogado, dão-lhe as seringas de borla lá na farmácia do bairro ali mesmo à minha frente. Também lhas dão de borla lá na prisão, quando passa lá umas temporadas, mas aí não lhe servem de nada, visto que é proibida por lei a droga nos estabelecimentos prisionais.

Aleluia, já não é preciso fazer mais contas há vida, passou agora mesmo um carro da prova que ficara para trás porque se lhe acabou a gasolina e me fez sinal para o seguir. Falei-lhe do aumento de preços, a meter conversa, satisfeito por voltar a montar na bici e seguir caminho, ao que ele me respondeu:

- Ná! Na foi do aumento. Eu meto sempre 5 euros, já dantes metia 1 conto de réis.

Parvos. Nem andei 10 minutos. Atão não é que a malta decidiu parar aos 200 km. Porque o itinerário tinha mais que o previsto e ainda faltariam 20, que o almoço em vez do combinado ia ser pataniscas devido ás inscrições de ultima hora, que as estradas por onde passáramos estavam todas esburacadas, que as descidas não eram tanto a subir como no antigo percurso, que não havia barritas, que não foram distribuídas as camisolas a dizer pratique actividade física mesmo no horário de trabalho (descarregar paletes também conta?), inscreva-se no LETANI (Liberte-se, Exercite-se, Transpire, Agora ou Nunca, Insista), que os policias de transito é que aumentaram o andamento, que no ano passado um ciclista tinha chocado com um carro dos acompanhantes que se metera no meio e a organização não obstante o seguro, nem um tusta tenha dado ao ciclista, que partira um braço, o cócxis, um artelho, que andou com alcatrão num joelho durante 3 meses, que ficou só com uma orelha dum lado e até ficou com um raio ligeiramente largo, coitada da bicicleta.

Ingratos, e até fui eu que tratei da inscrição. Parecia que estava num consultório médico a responder a tanta informação. Nem os gajos que vão a tribunal respondem tanto ao juiz. Já em novo tinha dúvidas com esta história do responder: a professora queria que eu respondesse sempre, mas a minha mãe tinha outra opinião e sempre me ensinou (perdão, me gritou):

- Cala-te, não me respondas!

Eles bem me pediram os dados do meu colega Sufrino Bombas para pôr lá na ficha de inscrição on-line, mas eu atirei-lhes umas datas do nascimento e do BI ao calhas. Depois queriam números da Segurança Social, da Caixa de Previdência e depois do Abono de Família, da coleira do cão e por aí fora. De zero a nove foi só escolher. Também com a prática que tenho de ouvir os colegas lá no trabalho à sexta-feira:

- Zéi, atira aí uns numbros pó bolhetim da malta.

… Epílogo

Vocês nem devem saber quem eu sou. Porque gosto muito de passar despercebido, nem gosto de ir lá para a frente mostrar os pneus novos, como alguns fazem. E só lá vou no final porque os meus colegas já se cansaram de se exibir, senão não ia. Então eu discretamente, ponho-me de pé, meto a roda grande e como sempre chego às paragens em promero porque gosto de me sentar no melhor sítio da sombra, não sou dos que me ando a exibir nas etapas. Só o faço porque como já vos disse, quero ser o primeiro a sentar-me e mais nada. Não tenho interesse em mais nada, aliás, só para vocês verem, quando o meu sogro me perguntou se eu queria a filha dele para casar ó quêi, eu prontamente, perdão, discretamente, disse logo:

- OK.

Estou tão viciado a mamar roda, que até a subir aproveito, pois sou tão discreto que posso andar na roda de qualquer um, quando não estão a olhar. Hoje, no inicio de uma subida, ia sendo apanhado, quando o gajo à minha frente se ergueu do selim, travei, desviei-me para o lado e raspei-me dali. Um dos que vinha atrás bateu-me com a minha roda traseira na da frente dele. O que me safou (disse ou não disse que sou discreto?) foi os outros terem-lhe acertado por detrás ao mesmo tempo que eu. È bem feito, para não andarem tão coladinhos na roda duma pessoas nas subidas.

Outra coisa que me dá gosto fazer nas subidas é quando o pessoal vai todo à rasca e eu venho lá detrás esgalhado e a ultrapassar neles pela direita. Mas deixem que vos diga, que é sempre com descrição que passo tanto um, como um montão deles. Hoje desviou-se um para o lado direito e ia-o traçando ao meio. Fartou-se de me pedir desculpa, mas no fundo pasmado de onde é que eu apareci, pois momentos antes pareceu-lhe ver que não vinha lá ninguém. Sou assim, o que é que querem: não venho lá e no momento seguinte, discretamente, já lá estou. Depois em voz alta procurando apoio popular, e mais uma vez, discretamente sublinho, recrimino:

- Vou eu a tentar recolar e este gajo atravessa-se à minha frente.

Mas mais giro mesmo é naquelas pequenas inclinações logo á partida, aos domingos, quando o pessoal ainda vai nas calmas a conversar e ainda vão aqueles principiantes do caneco lá na frente. Primeiro atiro:

- Hei pessoal, já viram tanta lesma. Olhem bem para estas lesmas. È só lesmas á minha frente. Afastem-se delas.

No inverno, então é de morte. Alguns usam um guarda-lamas na roda detrás, senão as calças ficam todas encardidas no sítio onde as costas mudam de nome. Nessas alturas não resisto em meter-me com eles. Simulo ultrapassá-los momentaneamente, enquanto aviso:

- Não podem vir na roda, senão salta laminha para trás.

publicado por Ubicikrista às 21:49

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