25 de Janeiro de 2011

CONSTIPAÇÃO

Pachos na testa, terço na mão, Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel, Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher. Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela, Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada, Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto, Já vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos, Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças, Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo, Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira, Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha, Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor. Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada. Faz-me tisana e pão de ló,

Não te levantes que fico só, Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes - (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

Especial deferência do João Carmo

 

Que raio de homens são estes! Num domingo bué da malta (quase 50 gajos) e no outro apenas uma dúzia. É da fibra destes últimos que o Ezequiel falava á dias para o repto do brevet (certificado), que se irá transformar em moda nos nosso pais nos próximos tempos, fazendo com que o troia-sagres se transforme num passeio ligeiro. O maior de todos os brevets é o Paris-Brest-Paris (1 200 kms). Esteve nos nossos planos no fim do século passado (à 12 anos). Antes de se porem a imaginar oiçam primeiro quem já lá andou a amolgar os tubaros, no brevet de 300, no de 400 e no de 600.

PS: Pela primeira vez em muitos anos o vento (35 km) fez uma média bastante superior á nossa. Por ter acusado positivo por pouco, (1 grau) de temperatura á partida, optou-se logo por se saltar para a fase de arrefecimento (3 horas) sem necessidade da fase de aquecimento.

publicado por Ubicikrista às 02:04

01 de Outubro de 2009

Olá de novo,

Aqui vai a crónica do último brevet, creio que sairá melhor pois desta vez é mais recente... Amanhã se tiver tempo, relatar-vos-ei as nossas peripécias na Xacobeo.

Brevet 600 km para o París-Brest-París.

Partida no sábado 29 de maio às 6:00 AM. Saímos da parte oeste das Astúrias, e depressa se formam vários grupos. Eu e o meu primo Luís "acoplamo-nos" a um mini-pelotão que parece levar um ritmo só para machos de barba rija. Nós os cinco componentes, sincronizamo-nos e vamo-nos revezando harmoniosamente. Subimos a La Cabruñana num ritmo cómodo (para mim sobretudo, não para o Luís que lhe "sobram" forças). Na descida, pese embora o facto de que cada dia descer melhor, fico separado, mas o Luís, meu primo e anjo da guarda (rio-me eu do primo do Zumosol), levanta um pouco o pé e rapidamente me colo a eles. De imediato começamos a ascensão de Espina, de uns 14 km. Aqui, o Luís acelera um nadinha a marcha, o que faz com que fiquemos sós. Subimos ao nosso ritmo até lá acima e paramos na bomba de gasolina para carimbar a caderneta (carnet). É o primeiro controle do brevet, 59 km, a que chegamos às 8:30. Aproveitamos para comer e beber.

Esperamos o resto do grupo e iniciamos juntos a descida, volto a descolar e de novo o Luís ajuda-me a regressar ao grupo. Dizem-me que devo perder o medo. O que diriam se me chegassem a ver aqui há dois meses (descia MUITO pior que agora). Respondo-lhes que deveria levar o "90" pois ainda não cumpri um ano a andar de bicicleta e bastante já eu faço a descer a 50-60 km/h. Também o Luís é um novato, mas foi motoqueiro e domina INFINITAMENTE melhor que eu a bicicleta. Continuamos a rolar pela costa asturiana, zona de curvas a descer (parecido com um escorrega aquático), até que somos alcançados por três madrilenos (pergunto-me se conhecerão a orografia asturiana). Imagino que o motivo da sua participação seja a data, pois para dizer a verdade, prefiro fazer 700 km em Madrid que 600 km nas Astúrias. Vamos dando relevos até que numa das vezes do Luís ir puxar ficamos os três adiantados. O madrileno sacanea um bocado nos relevos e decido (que mau que eu sou...) a táctica para o descolar. Espero por uma subida e dou-lhe a vez de ir á frente, justamente para que se mantenha lá um bocado na frente, e ao chegar á subida começo a puxar e acelero progressivamente para que ele acuse o toque, até chegar á minhas 170 pulsações (200 de máx.) quando me dou conta, só estávamos o Luís e eu, o fulano desapareceu (mais tarde pagaria com juros a mina "maldade", talvez depois disto, haja alguém lá em cima...).

Encontramo-nos fortes, graças aos 800 km que fizemos na prova da Xacobeo, e como o meu joelho não protesta decidimos meter canha no andamento "até torcer" para ir ganhado tempo. Vamos dando relevos, sempre mais fortes os do Luís, (por alguma razão é o "routier" e eu o "grimpeur" da família, ainda que depois me ganhe também a subir, e ao não termos o vento contra subimos o ritmo até quase aos 30 km/h. Prosseguimos assim até San Tirso de Abres, lugar onde teremos o segundo controle. É no km 174 e chegamos às 12:30 PM, mais o menos. Carimbamos na bomba de gasolina, bebemos, comemos e pomos os pés ao léu pois o calor e os quilómetros já passam factura em forma de dor de pés.

Retomamos a marcha e continuamos tal como anteriormente, mas pouco antes de chegarmos a Vegadeo (fronteira com a Galiza, inicio da costa e km 190 do brevet) o meu joelho esquerdo começa a protestar (creio que se trata de uma tendinite na parte lateral externa da coxa - fascia lata, em latim -, entre a anca e o joelho, por incorrecta posição da travessa) aperto os dentes e não digo nada, mas de alguma coisa deve suspeitar o Luís, pois os meus relevos vão sendo cada vez mais curtos. Ao chegar a Vegadeo, começa o meu castigo (pela maldade) em forma de forte vento de frente soprando de Nordeste, que nos acompanhará durante umas centenas de kms ao longo de toda a costa asturiana, concretamente 280 km. Daí a poucos quilómetros, lá tenho que dizer ao Luís que baixe o pistão, devido às dores no joelho esquerdo que me impedem inclusive de ir na roda. Qual D. Quixote contra os moinhos de vento, o Luís luta bravamente durante horas contra ele, embora de vez em quando lhe dissesse que se resguardasse um pouco atrás de mim para recuperar, pese o facto de ir sempre com o 39x19 ou 39x21, pois o joelho não me permite meter mais pesado. Creio que já me alcunham de "marciano", não por estar muito forte como Indurain, mas porque ando sempre na "pedaleirinha" (prato pequeno de 39 dentes). Por volta das 7 da tarde, chegamos a Avilés, donde temos o terceiro controle, km 325. Ali, estão a descansar alguns companheiros do brevet. Como de costume, recuperamos energias e após um curto descanso continuamos a marcha. Antes de chegar a Gijón (km 350), o Luís sofre um furo que coincidiu com um dos meus escassos relevos e tinha tal passarão que, não obstante os avisos sonoros, demorei um bocado a aperceber-me. Depois de me alcançar, ajudo-o (pouco) a recuperar e continuamos até à bomba de gasolina de Veriña onde metemos pressão nas rodas.

Cerca das 9:30 atravessamos Gijón, e dado que a noite se nos caía em cima, decidimos jantar em Villaviciosa. Saindo de Gijón, numa zona de recta, o Luís alucina-se ao ver que lhe custava mover o 39x24, dado o forte vento contra. Subimos o Infanzón com esse vento de frente e cada vez menos luz, mas dá-nos tempo para descer com o entardecer e desfrutar de uma paisagem espectacular. A seguir, vem a subida a La Venta de las Ranas que fazemos a todo gás, pois está resguardada do vento. Para a descida, contamos já com pouca claridade, acendo a minha lanterna e mais mal que bem chegamos a Villaviciosa. Dirigimo-nos a uma pastelaria onde damos conta de várias coca-colas, dois cafés e oito mini-sandes. Uma menina algo despistada, encantada nas cores luminosas pede-nos um autógrafo, o Luís declina com um sorriso e diz-lhe: "Este aqui que te o assine, que é mais famoso", não tenho força nem para rir nem para recusar, e como posso, esgatafunho algo com a esferográfica ainda debaixo dos efeitos da pássara. Quem me ia dizer a mim que terminaria a assinar autógrafos... Yáh, yáh. Mal a cena acabou e perante a iminente modorra que já sentiamos, instalamos pilhas novas, ajustamos as luzes e retomamos a marcha.

Logo após abandonarmos a localidade de Villaviciosa, (algum dia comprovarei se esta vila é assim tão viçosa...) apanho com um buraco e cai-me a luz dianteira. Desço da bicicleta e pude comprovar como ela ficou na estrada, justamente onde costumam passar os rodados dos carros. Para desgraça minha, um automóvel dirige-se para ela. Alço os braços e faço-lhe sinais para que se desvie. Não sei se viu a lanterna, a mim ou o que sucedeu, mas o facto é que se desviou. Volto a coloca-la no volante e retomamos a marcha. Na ascensão à Venta do Probe (não, não era o "pobre" Miguel... que esse há muito tempo que não anda) outra vez o ditoso joelho, desta vez a dor torna-se quase insuportável, o que me obriga a meter o 25 e forçar o máximo a perna direita. Devido a isto, baixamos o ritmo da marcha e fazendo das tripas coração vamos para Ribadesella, após atravessar uma zona de curvas e contracurvas, com constante sobe e desce (certamente o que me fazia mesmo falta). Entre a obscuridade da noite e os carros que vão um pouco "pesados", isto converte-se num verdadeiro desporto de RISCO, é aqui que quero ver esses dos radicais que saltam das pontes com elásticos). Creio que a dor me impede de sentir o perigo. Numa descida antes de Ribadesella, parece-me ver um cão preto na berma, estranhamente permanece impassível, até que chego perto e... tinha cornos: era una cabra. Ou talvez seria o diabo espreitando-nos? Cada vez vou mais cansado e perto das 2:15 AM entramos na localidade de Ribadesella, km 419. Limito-me a pedalar, pois por o ter forçado, também me dói o joelho direito. O Luís adianta-se até á bomba de gasolina (local do quarto controle) e espera por mim ali. Quando chego, tiro o pé do pedal e ao apoiar a perna esquerda, perante a picada que me dá no joelho, decido que o melhor é deixar-me cair tal qual um saco de batatas. Assim fiz, e nem sequer me mexo, inclusive queria permanecer ali estendido no chão, ma o Luís ajuda-me a levantar. Após um momento de descanso dirigimo-nos ao carro que havíamos deixado estacionado ali, prevendo a necessidade de termos que dormir um pouco. Deixamos as bicicletas e carimbamos num bar em frente, pois a bomba de gasolina estava fechada. Com isto eram 2:30, metemo-nos no carro e dormimos até às 5:00 (por una vez na via, vim prevenido com um despertador).

Comemos uma ou outra barrita energética e dirigimo-nos até Unquera, fronteira com Cantábria ao km 470 do brevet. Ali queríamos desjejuar as famosas Corbatas (folhados) mas está tudo fechado. AH! Já me esquecia, as duas horas e meia de sono serviram para que deixasse de me doer o joelho, talvez alguém tenha tido piedade do meu sofrimento. Por precaução, decidi não forçar o resto da viagem, e não meti mais a pedaleira grande salvo nalguma descida. Continuamos viagem até Panes km 482, local do quinto controle, onde chegamos perto das 9:30. Carimbamos e tomamos o pequeno-almoço como feras perante a estupefacção dos hóspedes do hotel (tão cedo e já com uma passara).

Retomamos a viagem até Cangas de Onís, e como nos voltámos a dirigir para Oeste, esperávamos que o vento nordeste nos ajudasse um pouco. Para nosso infortúnio mudou e deixou de soprar (pelo menos não nos batia de frente). Chegamos ao Alto do Ortiguero, uma subida já com alguma importância uma vez que já levas 500 km nas pernas. Subimo-la com relativa comodidade (ao chegar a casa descobrimos porquê: perdemos 5 kg cada um. Isso explica tudo, com 59 kg sobe-se muito melhor mesmo com um joelho ressentido). Descemos a toda a gáspea e rapidamente chegamos a Cangas de Onís, km 536, onde temos o penúltimo controle. Carimbamos, recuperamos energias e continuamos. Volto a ficar tipo passarão perdido e não obstante engolir barrita atrás de barrita não consigo melhorar. Vamos a uma velocidade de cruzeiro de uns 25 km/h. Está um dia esplêndido de sol e calor, é meio-dia e sinto um escalafrío, reparo nos braços e ESTOU COM PELE DE GALINHA. Isto é um claro indício de que vou na reserva.

Passamos Arriondas km 546, vou pedalando como um autómato, tenho apenas energia, que gasto nas subidas, para pedalar de pé (assim o joelho incomoda-me menos). Paramos para descansar em Infiesto, e já falta menos. Sabemos que vamos conseguir, ainda que faltem algumas horas. Mais animados que nunca continuamos a marcha, dado que o terreno que falta é mais ou menos plano. Chegando a Colloto, na subida da Coca-Cola, passamos por um sitio onde há um "sprint pontuável" do clube. O Luís desafia-me e respondo-lhe que, tal como Indurain, deixo-lhe as vitorias parciais... YÁH, YÁH (a verdade é que mal me segurava na bicicleta, como poderia eu sprintar). Perante a minha nega, aproveitou a passagem de um autocarro e fez uma corrida atrás dele. Subiu a 35 km/h a inclinação e GANHOU! Tendo 600 km nas pernas... boa.

Finalmente, chegamos a Oviedo, km 610. Tenho uma enorme dor de pés, que se agrava ao parar em cada semáforo. Aguento como posso até chegar ao lugar de entrega das cadernetas e mal desço da bicicleta descalço imediatamente as sapatilhas. Assinamos as cadernetas, metemo-las por debaixo da porta e PROVA SUPERADA. São 15:30, sobraram-nos 6 horas e meia, (o fecho do controle era ás 22:00). Horas montados na bicicleta 26, a uma média de 23,5 km/h. Creio que é uma boa média, dado o forte vento de frente durante metade do percurso e os meus problemas com o joelho, que me impediram de ajudar mais o Luís nos relevos. Horas totais com paragens incluídas, 33:30, a uma média de 18 km/h. Por fim, já estamos classificados para o París-Brest-París. Mas isso será a 23 de Agosto... e com 1218 km... Uau.

publicado por Ubicikrista às 18:03

Olá a todos,

Estive ausente ultimamente da list@, devido a que entre os brevets, Xacobeo e trabalho não tive nem tempo para ler as mensagens. Antes de mais nada, quero enviar daqui um forte abraço ao Andrés e transmitir os meus pêsames à família do Cipriano*, descanse em paz.

Aqui vai a crónica de do brevet de 400 km, disputada a 15 de Maio, lamento não poder dar mais detalhes, mas tanto sofrimento nestes 15 dias, debilitou o meus "pobres" e solitários neurónios. Imagino que quando tiver mais algum tempo, já o Luís a terá completado. Partida no sábado 15 de maio às 10:00 AM. O meu primo Luís, outro ciclist@, e eu partimos juntos. O dia estava feio, e previa-se chuva. Ao sair de Oviedo, cruzamo-nos com os corredores das equipas da Banesto e da Vitalicio que se dirigiam, desde La Gruta, até a saida em Ventanielles, dado que hoje é a subida ao Santuário del Acebo, na volta às Astúrias. Cumprimentam-nos e um deles, não me recordo quem, disse: "Ai o que nos espera". O Luís riu-se e comenta comigo: "Se fizermos esta, ai o que nos espera a nós..." Dirigimo-nos para Trubia com algum frio e depressa começa a chover. Depois de passarmos por Grado iniciamos a ascensão a La Cabruñana, já em silencio e cheios de lama. Descida até Salas e depois subir para La Espina, continua o frio e a chuva. Coroamos às 12:30 e carimbamos no primeiro controle, km 59. Deixa de chover e iniciamos a longa descida com muitas precauções. Vamos num bom ritminho até Vegadeo, onde paramos para perguntar como se vai para San Tirso de Abres, o lugar do segundo controle. Temos de passar em Lugo e voltar a entrar nas Astúrias. Ao desviarmo-nos para o interior, começa de novo a chover. Chegamos às 16:45 a San Tirso de Abres km 174, carimbamos, comemos, bebemos e retomamos a marcha. Temos de voltar por donde viemos e depois continuar pela costa até Avilés. Estamos com sorte porque mal chegámos á costa, deixou de chover. Cada vez estou mais cansado e perto das 19:00 já mal consigo acompanhar o Luís mesmo sem passar dos 20 km/h. Devo ter uma “passarona” de estalo. Ao entardecer, paramos, pomos as luzes e fico obcecado pelas barritas. Depois de comer, recupero as forças e já posso rolar a 25 km/h com facilidade. Faz-se noite. É a primeira vez que andamos assim de noite, e ficamos surpreendidos por ver que se rola bastante bem. O cansaço ajuda-me a descer à maluca e às 23:00 chegamos a Avilés, km 325. Continuamos para Gijón e chegamos à bomba de gasolina de Veriña às 24:00, local do terceiro controle, km 350. Bebemos e calçamos as protecções para os sapatos (bolos, pastelinhos, chocolates...). Já está bastante frio e ao recomeçar, não tirei a pedaleira grande e numa subidita, o meu joelho esquerda diz basta. Uma dor aguda que vai aumentando limita-me o pedalar... Atalhamos pelo parque industrial de Porceyo mas perdemo-nos. Perguntamos numa bomba de gasolina mas continuamos perdidos. Vimos uns guardas-nocturnos e o Luís perguntou-lhes o caminho. Com grande amabilidade, dizem-nos para os seguirmos (tinham um jipe) e levam-nos ao caminho certo. Iniciamos a subida ao alto de La Madera, cada vez me dói mais o joelho e vou a subir com o 39x25 e só com uma perna boa... O culminar chega numa descida, e ao Luís acabam-se-lhe as pilhas e tem de descer atrás de mim (grande suplicio, por ser tão mau a descer). Os carros que vêm de frente encandeiam-nos, ainda que alguns dos que vão na mesma direcção que nós, permanecem um pouco connosco para nos iluminarem, facto que se agradece. Quase que me despisto numa curva muito fechada, pois a linha exterior da estrada estava coberta pelas ervas. Por fim, terminamos a descida e passamos junto a um valado de uma quinta, com um cão que nos ladra enquanto nos vai acompanhando. Rimo-nos do cão pois não pode saltar a vala, quando de repente, observamos que há um buraco na mesma e o cão sai para a estrada. O Luís aumenta a pedalada e deixa-o para trás e eu, com uma perna, tive de apertar os dentes e é por pouco que consigo evitar uma mordiscadela (mordiscão era melhor). Cada vez mais devagar, só atinjo os 20 km/h no terreno plano, vamos até ao quarto controle, Lieres, onde chegamos às 2:15 AM, km 385. Descansamos um pouco e regressamos para Oviedo. Sofrendo o indizível consigo chegar á meta. São 3:15 AM e km 405. Entregamos as cadernetas e despedimo-nos até ao dia seguinte, no aniversário do filho do Luís...

* promissor ciclista espanhol falecido numa chegada ao sprint

publicado por Ubicikrista às 18:02

Olá amigos, hoje é o dia seguinte.

O dia seguinte de um abandono anunciado.

Estive toda a semana passada constipado, e com o corpo que não parecia o meu, por momentos tive a sensação de que a mente era de um 'outro corpo'. Uma estranha sensação.

O dia anterior, ou Sexta, pela tarde acerquei-me de Sabiñánigo para recolher o dorsal, pois Barbastro está só a 100 km. Ali tive uma grande alegria, pois tive a sorte de poder falar um bocado com o nosso Eduardo, Eduardo Chozas 'in person'. Simpatia e amabilidade a rodos, creio que ele também se alegrou de falar com um barrigudo da CicloLista.

Pois bem, depois do paleio para a casinha, jantar de espaguete, copo de vinho tinto, e toca a dormir,... bom para a cama, porque dormi pouco. Uma coisa eram os nervos normais prévios a um grande acontecimento, outra coisa era o meu intestino que, como toda a semana prévia, estava 'revolvido, revolvido'.

Resultado, na manhã seguinte subindo de carro para Sabi, rebentamentos e 'correntes eléctricas' pelo baixo ventre como uma tempestade de verão.

Cheguei a Sabi às 7h, 20m. com mais moral que o Alcoyano, montei-me na bicicleta, vesti-me de 'faena', rodei 10 minutos, e às 8 h. na linha de partida.

IM-PRE-SSIO-NAN-TE, um ano mais, só para estar aí esses momentos vale a pena aproximar-se da Quebra (como disse Alix).

4.000 chalados, altos, baixos, velhos, jovens, barrigudos, estilizados, ... de toda Espanha, todos com a mesma ilusão, a verdade é que ficas com pele de galinha. Por alguma coisa estranha, sentes-te em sintonia com todas estas pessoas desconhecidas para ti. Gratificante como poucas pelas coisas que possas chegar a sentir.

Bem, à grana...

Foguete de saída às 8,29 h e aí acabam-se todos os males, nervos e dores. Com cuidado e arreando a besta.

As pernas ocas, com dores inlocalizáveis, pulsações a mil, a malta ultrapassava-me como as motos (antes de chegar a Jaca, falsas zonas planas - mas mesmo muito falsas - circulando a 45 km/h e o vácuo arrancava-me os autocolantes quando me ultrapassavam...incrível como ia o pessoal este ano).

Voltam as correntes eléctricas e rebentamentos no baixo ventre, o que me leva a pensar numa paragem rápida e urgente...

Não foi preciso, falso alarme.

Chego ao abastecimento de Somport, km 60, 2h 10 m. depois de coronar Somport com picadas e com o orgulho ferido, paro para encher os bidões com Aquaruis e ao pôr pé em terra... as pernas abanam como um pudim.

Sensações de debilidade em todo o corpo, frustrante, depois do que creio, tinha sido uma boa preparação para este dia.

A causa, ¿?..., não tenho nem ideia, ¿ O que é que decido? Pois claro, meia volta e casa, que ainda estou a tempo.

Frustração total, tristeza e desânimo.

Hoje com a mente e o corpo mas relaxado, tiro uma conclusão, há que treinar melhor (mais não posso).

Os apontamentos e os conselhos de Eduardo Chozas também me ajudaram.

publicado por Ubicikrista às 14:09

Olá a todos !!! Agora que tenho um tempinho vou contar-vos a minha primeira participação na Quebrantahuesos que espero repetir todos os anos sucessivamente. Sou um gordinho de fim de semana e o trabalho impede-me de sair a meio da semana. Juntando a isto, que no inverno não pude sair na bicicleta, levava a preparação um bocado atrasada. Comecei a sair em Abril e tive que intensificar os treinos nas três semanas anteriores, com saídas de longa distancia (mais de 150 km) e a meia da semana fazendo rolos. Assim, cheguei aqui com 2100 km de estrada e 1000 de rolos, um pouco à justa, mas como costumo andar mais que os outros, com mais ou menos quilómetros não é problema (deve ser porque tenho 26 anos). Passo a relatar-vos .....

Chego na sexta pela noite ao Hotel, com vontade de pilhar a cama, já que nessa semana por uma razão ou outra deitei-me sempre tarde e queria descansar. Assim, deixo tudo preparado, tomo um bom duche e quando me disponho a ir dormir dou conta de que as pessoas das outras habitações não devem ter sono, dado que através das paredes delgadas se ouvia o pessoal a falar, abrir e fechar portas, e na habitação contígua umas crianças correndo e gritando, os quais teria estrangulado com alguma câmara de ar.... por fim às 00:30 parece acalmar-se tudo e às 6:30 acordo para o pequeno almoço. Ás 7:30 vou recolher o dorsal, volto ao hotel e preparo-me. Ás 8:15 estava na partida com uma quantidade impressionante de ciclistas à frente. Dão a ordem de partida em menos de um foguete e pomo-nos em marcha. A longa fila é impressionante, algo me diz que se quero avançar posições vai-me custar muito, pois tenho que me ir esquivando dos mais lentos. Ao mudar para a pedaleira grande sai-me a corrente da rodinha traseira e faz um ruído, pelo que tenho que parar e metê-la com um desmonta, isto acontece-me 3 vezes em poucos quilómetros (depois já não aconteceria). Assim as 3 paragens sucessivas fazem-me perder muitas posições, tento prosseguir recuperando posições e como os grupos se vão fraccionando com o vento,  sou obrigado a ir saltando de grupo em grupo com o vento de caras. A estrada é plana, com algumas subiditas e descidas até que a uns quilómetros antes de Canfranc começa a empinar, o ventinho gelado arrefece-me demasiado as pernas (ando muito melhor com calor) e na subida de Somport noto que a velocidade a que subo, 15 ou 16 km/h, é muito baixa para o que deveria ser, devido decerto ao frio e ao vento. Assim decido ir andando sem forçar em excesso (por precaução). De todas as formas continuo a ultrapassar pessoal e chego ao cimo de Somport. Descemos por uma estrada, que, pelo que me contaram, não era habitual (por isso nos diplomas retiraram a todos 20 minutos) que estava cheia de terra e gravilha solta. Assim mais vale prevenir...... e mãos ao travão, mas no de trás nem pensar em lhe tocar nas curvas. Após 2 km de descida estava o abastecimento, paro para atestar de bebida isotónica e apanho alguma fruta. Procuro a bicicleta por onde a havia deixado, prosseguindo com a descida com bastante cuidado e vejo membros da organização com bandeiras indicando onde há mais perigo. Nesta questão, está bastante bem a organização. Pouco depois melhora a estrada e lanço-me mais alegremente até abaixo, e já no plano alcanço um grupo que se tinha formado e chegamos à curva onde começa a estrada até ao Marie Blanque. A temperatura tinha subido um pouco e faz com que eu vá mais à vontade. Como os primeiros quilómetros são bastante estendidos levo uma boa velocidade, continuo  a passar gente como posso pela estrada estreita. Quando faltam 4 quilómetros começa o mais difícil, apanho alguns da minha cor clubista (Zarabici) e converso um pouco com eles. Como vejo que tenho forças continuo para a frente. Ainda faltam os 2 últimos km que me custam a engolir um bocado, baixo o ritmo para não sobrecarregar muito os rins. 2 km mais abaixo, depois do cimo, encontra-se o abastecimento que não ignoro e depois até desço com vontade de mais subida. No plano junto-me com um grupito e aceleramos até às primeiras rampas, como estou de bom tom decido prosseguir num bom andamento e continuo a ultrapassar pessoal até ao seguinte abastecimento de Artouste, donde apanho mais bebida isotónica e algum pastelinho. Retomo a subida, e acho-a muito fácil até aos últimos 5 km, donde se torna mais custosa, então dou conta que levava um bidão daqueles grandes cheio de agua e que não lhe toquei durante todo o dia, e despejo-o. Levo um ritmo bastante irregular, até que nos últimos km alguém me pergunta se estou a fazer séries. Xexé!. Acabo a subida e começa a descida com umas curvas bastante largas, onde alcanço a máxima velocidade do dia 89.1 e para que não me falte nada, paro outra vez no abastecimento de Formigal (no total de todos os abastecimentos parei mais de 20 minutos) e continua-se a descer por uma estrada bastante estreita e complicada até que viramos à esquerda para apanhar a estrada até o alto de Hoz, que pelas suas duras rampas de 2 km, passamo-lo como podemos, eu e os do grupito em que ia metido, com o incomodo de um ou outro carro que se tinha metido por ali, apesar da estrada ter sido vedada ao transito automóvel. Alcançado o cimo, lançamo-nos até lá abaixo com certa precaução e uma vez na estrada principal reagrupamo-nos uns quantos e aceleramos até à meta, mas quanto ao grupo é um desastre total, já que ou se dão esticões ou ninguém puxa, até que por fim encaramos com a subida final e entregamos o dorsal. No final fiz um tempo de 7:52 ( 7:32 no diploma), pelo tempo gasto suponho que cheguei no mesmo grupo de Ramón, é pena que não nos conhecêssemos antes, eu ia com uma capa de vento tipo colete cinzento e verde. Claro que na meta me desfiz de todos os invólucros do que tinha comido. No final diverti-me bastante e fiquei com vontade de mais, assim no ano que vem volto com lugar marcado, além demais com a experiência deste ano é de tentar fazer um bom tempo no próximo.

Nem mais, um abraço a todosssss.

publicado por Ubicikrista às 14:08

Mas que bem que se “anda” pelos Pirineus !!!!!!!!! Mas nada comparado com o ano passado.

Começo a minha crónica:

Viajo na sexta desde Madrid até Saragoça, donde me esperam uns amigos e com eles subo até Sabiñánigo para levantar o dorsal e o resto.

Após um tumulto de pessoas e uma fila como as que se fazem no Iémen, deparo-me com o Eduardo Chozas. Acerco-me, cumprimento-o e pergunto-lhe se viu alguém da CicloLista. Eduardo disse-me que sim, mas não me sabe dizer quem.

Ao longe vejo que há fotos do ano passado. Tento encontrar-me, mas não me acho em nenhuma.

Bom, depois disto vamos jantar e dormir em Villanua.

O albergue onde estávamos instalados é bastante acolhedor. Já o conhecia do ano passado ao fazer cicloturismo com mochila. O único problema é que temos que dormir com outras pessoas. A nós tocou-nos dormir com dois Bascos, que dormiam emitindo ruídos pelo nariz, pelo que não pudémos dormir muito.

Enfim. Na manhã seguinte levantamo-nos às 6:30, tomamos o pequeno almoço e descemos para Sabiñánigo.

Na partida muita emoção e muitos nervos. Imaginem 4.000 pessoas contagiando-se mutuamente dos nervos. Por isso, quando soa o “foguetão” começas a ouvir uma avalanche de molas de encaixe, que vem desde a primeira linha de partida e se prolonga até ao final.

Parece que alguém grita!!! O ultimo é maricas!!!. Sai-se a todo o gás.

Entre Sabiñánigo e Jaca podem-se alcançar velocidades de mais de 40 quilómetros hora no plano. Parece que ninguém se lembra que todavia ainda faltam cerca de 200 quilómetros. Porém é o único terreno onde se pode fazer corridas na marcha.

Quando começamos a subir desde Jaca encontramo-nos com um vento de frente de tombar, e acentua-se quando passamos Villanua para começar a subir o Somport. Este ano fizeram uma variação no percurso e obrigaram-nos passar nos arredores de Candanchú.

Depois uma descida de 30 quilómetros intermináveis. Na primeira parte o chão estava cheio de gravilha, que a alguns obriga a travar e a outros até a caírem. Uma pessoa até se passa descer tantos quilómetros seguidos.

Mais tarde começámos a subir o Marie Blanque. Recordo-o do ano passado como uma montanha dolorosa, devido ao calor. A temperatura na base da montanha é agradável, e ainda está bastante nublado. Pouco a pouco e poupando-nos muito, avançamos até à parte durinha, donde podemos encontrar, a andar a pé, aqueles que não pensaram nas mudanças. Eu, com a minha pedaleira tripla e o 26 atrás subo confortávelmente sentado na parte de atrás de selim. Alguns pensarão que é um exagero, mas  movê-lo a mais de 65 pedaladas faz-te subir tal como um colchão de espuma.

Já na chegada ao abastecimento, no prado da descida de Marie Blanque, paro para comer alguma coisa, reencher os bidões e pôr os manguitos. Lanço-me a esgalhar pelo Marie Banque, com as suas pequenas curvas (o Faco gostaria bastante desta montanha) e chegamos ao plano, em que por sorte o vento sopra a favor.

Em menos de nada começamos a subir o Portalet. Ponho-me à vontade, tiro o capacete e ato-o ao guiador e começo a subir com toda a parcimónia deste mundo. O pessoal começa-me a ultrapassar como loucos. Depois com o meu andar de tartaruga viria a alcançar muitos deles.  A meio da montanha outro abastecimento, e depois uma zona bonita donde se abre o vale e podes admirar toda sua formosura. Nada se compara ao calvário do ano passado. Dá-me vontade de apertar um pouco mais e de subir mais rápido. Mas penso no que ainda falta e não me vou esgotar para nada. Por fim, vão passando os quilómetros e chegamos até ao cimo. Este ano temos o abastecimento em Formigal.

Descer o Portalet é um passo. É uma descida prolongada com curvas muito abertas. Tipo Navacerrada mas côncavo. Logrei atingir 85 por hora. Há pessoal que até ultrapassou isto, mas não sei como.
Bom, quando estou a descer mesmo a gosto, fazem-me sinais de que me meta à esquerda para entrar em Formigal. Atravesso a povoação sem parar no abastecimento e à saída encontro um par de cabeços que me fizeram recordar os pais dos tipos da organização.

Bom, incorporamo-nos de novo à estrada e voltamos a meter à esquerda para subir até Hoz. Não é uma montanha muito exagerada em relação ao que já subimos, mas as pernas vão pesando. Hoz faz-se como se pode e começamos a descida a esbarrondar até Sabiñánigo. Por sorte temos o vento a favor, com o qual se rola a todo o gás. Mais ainda se vais com algum grupito de tipo canhão.

Após uma longa zona plana entramos na meta. Claro que a chegada está numa subida pelo que a entrada às vezes é até espectacular. Todo o mundo com a pedaleira grande metida e sprintando como se nos fossem a bater por detrás.

É muito emocionante entrar quando toda a gente te está a aplaudir. A mim escapou-se-me alguma lagrimita. Só me aconteceu ter sido assim recebido em duas vezes, uma nos Lagos este ano, e outra na Quebrantahuesos do ano passado.

Já na meta olho o cronómetro vejo que realizei 9:36 minutos. Não está mal, mas no próximo ano de certeza que faço prata. Quando vou recolher o diploma e a medalha, comunicam-me que nos descontaram 20 minutos devido ao desvio de Formigal. Assim totalizei 9:16. Justamente uma hora menos do que o ano passado.

Sendo assim muito bem, muito bem, muito bem mesmo.....

Depois para a coisa ficar completa, encontro uma foto que me fizeram que vale 300 pesetas, na qual fiquei muito giro coroando o Marie Blanque. Muito giro porque parece que não estou tão gordo como nas fotos que o Faco faz. Assim sendo, claro que a comprei e tenho-a aqui em casa.

Para mais enfeite, vou a um bar tomar umas canhas com um amigo de Saragoça e aparece o Eduardo Chozas com o seu filho. Senta-se o meu lado, começamos a falar da marcha e convida-nos a outra ronda.

Para que saibam, o Eduardo na actualidade é um cicloturista mais. Sabe muito mais que nós, mas pode-se falar muito bem com ele. É um tipo de homem com que gostaria de me cruzar mais de uma vez, e não tão só por a canhas [Credo! Não há modo de «arreglar» a frase].

É uma companhia muito grata.....

Isto é tudo amigos !!!!!.

Vamos ver se para a próxima QH nos divertimos mais.......

publicado por Ubicikrista às 14:07

Passou quase uma semana e todavia não me saiu o sorriso de satisfação da cara, pelo objectivo cumprido de ter acabado a Quebrantahuesos 99. Se me tivessem dito aqui à três anos, quando para mim era uma façanha ver três algarismos no conta quilómetros, que viria a ser capaz de enfrentar mais de 200 quilómetros com três montanhaços, teria pensado que me estavam a gozar.

Não me vou alongar muito porque ando muito mal de tempo. Estou a preparar uma tese e não tenho tempo nem de ler as mensagens (tenho mais de 200 pendentes para ler), assim saltarei a parte social, que já foi relatada pelo Ramón (a quem agradeço extremamente os conselhos dados, que me foram de grande utilidade para levar a bom porto a Marcha) e os aspectos que já foram comentados pelos demais participantes, e para não ser repetitivo.

A impressão geral depois de ter chegado ao fim, é de que a Quebrantahuesos pelo direito que lhe assiste é "a nata da nata" do cicloturismo, e diria que até do ciclodesportismo espanhol. Como disse o Angel, daqui ou se sai maricas ou último. Fui ultrapassado por tipos e pelotões durante a primeira hora de corrida que iam como se fossem fazer um percurso de 50 quilómetros, não obstante ter na 1ª hora sacado uma media de 33.

O resto do percurso passei-o a ultrapassar pessoas, o que me leva a concluir de que há muitos que começam a corrida por cima das suas possibilidades.

A beleza do percurso é digna de destacar. O Marie Blanque é difícil, mas com o meu 39 x 26 pude toureá-lo [no original: "capear lo"] com êxito. Isto porque a foto que me fizeram foi um barrete lamentável, toda sumida, nem vos digo que me a ofereceram. Pareceu especialmente bela a paisagem de Portalet,  e lanço-me no propósito de voltar como turista para desfrutar de tão estupendo local.

Fui toda a etapa com a intenção de que tinha possibilidades de entrar em tempo de medalha de ouro, mas como não tinha referencias, ao contrario da maioria, por ser a primeira vez que participava, não tive claro, até quase ao final, as possibilidades que pensava ter.

Aguentei muito bem a quilometragem e as montanhas, incluindo a pontinha do cabeço de Hoz; mas quando chegamos ao cartaz que indicava 3 quilómetros para o final, num grupo de uns 50 tipos, sofro contraturas nas duas pernas à vez, e tive que baixar o ritmo deixando escapar todo o grupelho. Deu-me uma raiva tão grande, porque segundo os meus cálculos ia muito à justa para poder entrar em tempo de medalha de ouro. Tinha que chegar antes das 16'25 e cheguei às 16'29 com a qual acabei contente mas com uma pequena frustração por ter perdido a oportunidade de sacar o Ouro tão só por 4 minutos.

Afinal, como já foi comentado bonificaram-nos em 20 minutos, e o meu tempo oficial foi de 7H 39' com o qual em vez de me faltarem 4 minutos, sobraram-me 16 para conseguir a medalha de ouro. Não queria acreditar, estava exultante. A minha primeira participação na Quebrantahuesos e  tinha conseguido o objectivo com bónus.

Para finalizar, seria injusto não dedicar um espaço à Organização. Exemplar em todos os aspectos. Os abastecimentos fenomenais, tanto em quantidade como em qualidade, como em organização. A sinalização perfeita. A assistência sensacional. Pareceu-me incrível como puderam controlar uma Marcha de quase 4000 tipos sem que fosse um caos organizativo. CHAPÉU para os membros de Edelweiss.

Eu! Pois no final da mini crónica, nada mais tenho a acrescentar. Mas é que voltar a recordar a jornada de sábado 19 de Junho de 1999, produz-me uma emoção difícil de dissimular.

Recomendo àqueles que possam permitir-se o luxo (para mim é) de se prepararem e treinarem, para enfrentar semelhante percurso, que o façam. A satisfação de objectivo cumprido é indescritível.

Saúdo todos e felizes pedaladas.

publicado por Ubicikrista às 14:06

publicado por Ubicikrista às 14:04

Capitulo 2

SABIÑÁNIGO

publicado por Ubicikrista às 14:00

Quase que me matavaaaaaa !!!!

Olá a todos !!!

Confesso-me um completo ignorante da geografia espanhola. Antes deste fim de semana pensava que só havia montanhas de Madrid para cima.

Que armadilha a de Málaga e a montanha do Torcal! Paco e eu coincidimos em que esta marcha é mas difícil que os Lagos de Covadonga.

Conto-vos. No sábado pela manhã saímos de Madrid, o Paco e eu, pensando que o que íamos fazer era um passeio em grupo, visto que pôr quatro abastecimentos numa marcha de 115 Km era demasiado.

Chegámos e alojámo-nos num hotel em pleno centro de Málaga, estava recém reformulado e a verdade é que muito bem.

Desde que chegámos a Málaga demos conta de que as coisas ali correm num ritmo diferente ao de Madrid. As pessoas aqui andam muito mais tranquilas e devagar.

Também vemos que Málaga é muito maior do que tinhamos imaginado. Tem muitos semáforos que duram muito pouco tempo.

Bom, basta de descrições e vamos ao que interessa.

QUE BELAS MOÇAS QUE HÁ EM MÁLAGA. COLEGAS !!!!.

Lamento, não era isto o que queria dizer (embora seja verdade).

Pela tarde conhecemos o Juan que está justamente no local onde combinara com o Paco, ao lado do computador. Grande Paco, este sim sabia o que era o Torcal. Ele mesmo dizia que se tivesse explicado a dureza desta montanha não teria vindo tanta gente.

Bom, no dia seguinte, já na marcha, conhecemos o Fernando que veio de Granada. Subimos a montanha de Fuente de la Reyna. Uma montanha muito confortável, com bastantes patamares para se poder recuperar. Durante a subida da serra, só oiço os diferentes grupos de ciclistas falar da dureza do Torcal. Todos sabem a fama dos andaluzes para o exagero, mas  amigos, estes não estavam a exagerar nada……. 

Descemos a Fuente de la Reyna e após uma rampa conchavada vemos ao longe o Torcal. E iope, ele está muito, muito empinado, mas não parece estar longe.

As primeiras rampas começam logo a doer um pouquinho. O caso é que, como vem sendo hábito, o Paco descola o Fernando e a mim, e sobe ao seu ritmo.

Fernando e eu começamos a comentar estas coisas típicas que se costumam dizer nestas ocasiões. Que faço eu aqui?. Com que gosto estaria em casa. !!!! Já não tenho idade para isto!!!. Eu o que gosto é desfrutar da bicicleta, etc, etc, etc…..!!!!.

Bom, depois de subir umas quantas rampas de, creio eu, mais de 11%, chegamos a uma zona na qual podemos recuperar um pouco.

Justamente depois desta zona, começa a subida dos últimos 3 quilómetros. Uma recta interminável. Eu tenho que parar quando faltam 2 quilómetros, porque me começam a dar cãibras na perna esquerda e deixo que o Fernando suba à sua maneira.

Após recuperar, subo e encontro o Paco e o Fernando sentados num muro. Todos dizemos o mesmo !!! Que difícil é esta montanha !!!. Fazemos uma fotos e atiramo-nos até lá abaixo. Ao descer dou conta da formosura da serra de Málaga. Paisagens dignas dos Picos da Europa ou dos pré-pirinéus Aragonêses.

Na povoação seguinte dão-nos um abastecimento sólido digno de aplauso. Não posso conter a enorme vontade de comer, e então, como e bebo a duas mãos e um pé.

A partir daqui começa o mais difícil, voltar a Málaga. Um calvário de 40 quilómetros cheios de rampas e alguma subida mais ou menos prolongada. Continuo a sentir cãibras nas pernas e deixo abalar o Paco e o Fernando.

Com uns carretos dignos de bicicleta de montanha vou-me arrastando tendo o cuidado de não forçar muito os músculos para não voltar a ter cãibras. Inevitavelmente, numa das subidas, dão-me de novo as ditas cãibras. Paro um pouco e volto a subir na bicicleta.

Com dificuldade, chego ao ponto mais alto da Volta a Málaga. E daqui em diante uma grande e muito, muito divertida descida, com muitas curvas e muita técnica. Curvas daquelas de entrar devagar e arrancar à saída. Por fim e com alguma dificuldade na minha pedaleira tripla chego a Málaga, partilhando os mesmos sentimentos do Paco e do Fernando.

Um circuito muito difícil, uma organização excelente e sobretudo, pela minha parte, uma falta de treino impressionante.

É que eu, desde logo, não estava preparado para uma coisa assim. Nunca me costumam dar cãibras nas pernas…

Os meus parabéns aos malaguenhos pela sua dedicação a esta marcha e por ser tão bem feita. O único que não gostei foi a falta de um pouco de Reflex, que não encontrei durante toda a marcha. Teria sido uma grande ajuda, pois não fui o único com cãibras nesse dia.

E isso é tudo, companheiros do aço.

Vamos ver se nos incentivamos a juntarmos mais gente nas marchas. Ainda não nos demos conta mas já somos um Clube. E com muitos contactos. Não estranhem ver dentro em pouco o Eduardo Chozas na Ciclo-Lista.

Nada mais.

Ai, Ai !!! . Deixo-vos. Acaba de me dar uma cãibra  nas orelhas,,,,,, até logo !!!!.

publicado por Ubicikrista às 13:04

A minha crónica é sobre o percurso da Clássica Eduardo Chozas, mas realizado na semana anterior com o meu Clube, já que eramos nós que cabia organizar.

Não a realizei antes porque temia que alguém fizesse marcha atrás.

Era a primeira vez que realizava o circuito, e estava com uma vontade enorme pelo que diziam do Torcal, e de superar um novo desafio.

A diferença deste domingo é que o tempo estava mau. Choveu um pouco quando subíamos a La Reyna, e fazia um vento daqueles de termos que agarrar bem a bicicleta.

Subindo a La Reyna, excepto a fera do Clube e os três novatos na subida ao Torcal, todos iam muito poupadinhos, de modo que reduzi o ritmo e deixei-me apanhar pelo grupo, protestando pelo ritmo tão lento a que iam. Eles diziam-me que mais adiante já falaríamos. Os três últimos km de subida a La Reyna fi-los bastante fortes, porque nesse momento pensava que não se subiria o Torcal devido ao mau tempo.

Descendo, o vento atingia-nos com força, e a parte entre Colmenar e Casabermeja, rectas onde normalmente se vai a boa velocidade, foram duras, duras, porque o vento batia de frente o suficiente para derrubar alguém da bicicleta.

A parte da subida até chegar a Villanueva, fez-se muito devagar. Um companheiro que ia comigo, fez-me o mesmo comentário. Três semanas antes subíramos esta parte até Villanueva, e naquela ocasião pareceu-nos metade do difícil do que nos pareceu agora.

Ao chegar a Villanueva, muitos pararam e disseram que esperavam que o fizéssemos também. Eu estive a ponto de ficar porque estava rebentado, mas o repto e a vontade de conhecer a subida do Torcal, tornou-se-me num "perigo para mim mesmo" prosseguir até ao cimo.

Só iam três companheiros à minha frente e um deles deu meia volta, coisa que estive a ponto de fazer também. Depois de muito sofrimento cheguei ao cimo, mas o meu calvário estava ainda por chegar.

De volta a Málaga, até Casabermeja, ia colando e descolando do grupo que até não ia muito rápido. Quando começámos a subir Patascortas, EXPLODI. ¡&iexcl[1]; Pássara monumental!!. O grupo afastava-se cada vez mais e eu levava "metido" o 26 (reservado para o Torcal) e tudo me parecia duríssimo. ¡ Não posso, não posso!. Cada pedalada é uma picada nos músculos, doem-me as costas, os pulsos, os braços e não podia raciocinar com clareza. Neste estado, aguentei talvez mais do que devia - a subida até Patascortas, e uma parte mais do percurso - até que decidi parar e subir para o carro que nos acompanhava. Foi a «pássara» maior que tive até hoje.

Um abraço. Juan Fdez



[1] N.T. Para caracterizar palavrões.

publicado por Ubicikrista às 13:03

Nesta altura da película, imagino que já todos vocês conheceis a cena de Malaga, e pouco mais fica para acrescentar às excelentes crónicas enviadas. De qualquer modo, e dado que tampouco escrevo muito na CicloLista, vou tentar complementar as outras crónicas com a minha  visão particular.

Antes de mais, vou apresentar-me um pouco. Vivo em Granada à sete anos, mas ainda sou de Bilbau, tenho quase 40 anos (em novembro próximo), meço um pouco mais de 1.80 e peso à volta de 85 Kg. Como vêem, não sou exactamente o dobro do Pantani, e com o qual mais me pareço no universo ciclista, é a um cu gordo holandês. Com esta introdução, e uma vez lidas o resto das crónicas da subida ao Torcal, já imaginam o bom bocado que passei.

A verdade é que gosto das marchas cicloturistas. Devido ao meu trabalho e a outras causas, saio na bicicleta quase sempre sozinho, e de vez em quando gosto de me meter no ambiente ciclista, ver e admirar as bicicletas dos outros, as pessoas dos clubes com as suas camisolas iguais (vamos a ver quando teremos as nossas) e, em resumo, esse conjunto de coisas que te levam a pensar que pelo menos por um dia tens algo em comum com o Indurain.

A primeira marcha que fiz (a subida a Veleta do ano passado), pensava que para o meu nível havia treinado bastante, e imaginava que ia encontrar gente parecida comigo. Grande erro. Nada mais se dar a partida, dos 700 que participávamos, cerca de 600 saíram disparados perante o meu olhar atónito, sabendo o que nos esperava, e ficámos num grupo onde se podia encontrar um amplo mostruário do leque dos varios tipos de cicloturistas, incluindo gente com as camisolas justas de mais, quer dizer, gordos; gente com pouco cabelo, e a maioria branco, em resumo, gente com todos os sintomas que dá a idade e os excessos da vida. Deles não há que dizer nada, já que este é o grupo com o qual sofri durante toda a subida, e os que volto a encontrar nas outras marchas em que participei, que considero os meus companheiros ciclistas. Como comentava antes, apesar disto, gosto de participar.

Entrando no baile. No domingo passado levantei-me cedo, tomei um pequeno almoço equivalente à dieta de uma modelo para um ano inteiro, apanhei o carro e fui para Málaga de encontro a esse ambiente que antes comentei. Logo de inicio, vi um tipo com uma fita retrovisora no capacete, acompanhado de outro com uma camisola de @ciclistas, e supus que não poderiam ser outros senão os meus companheiros da CicloLista. Pela primeira vez, o clube ciclista virtual convertia-se em real, e com grande alegria da minha parte, dispus-me a começar a marcha em boa companhia.

O que se seguiu já o devem ter lido. A subida ao Torcal é brutal, e muito mais para alguém com as minhas características físicas. Sofri o que ninguém escreveu. Tive que pôr o pé em terra algumas vezes, mas cheguei ao fim, e pudémos sacar a foto dos três heróis da jornada.

Depois, o regresso a Malaga (40 Km) foi angustiante. Estas provas com uma subida tão difícil, deveriam, finalizar no alto da montanha. Todo o percurso que falta parece em excesso, mas 40 Km de rompe pernas, com uma montanha de mais de 2 Km, é factura a mais do que estou acostumado a pagar. Durante esta parte final é onde mais aprecio a companhia do Faco e do Angel. Por estas alturas a marcha estava totalmente partida, e havia gente a regressar isolada, com uma cara de agonia, própria para inspirar actores, semelhante aos que participam na procissão da Semana Santa.

 Finalmente chegamos a Málaga, com a satisfação do dever cumprido. Tomamos três canhas de cerveja, um prato de macarrão e um bocado de tarte (tudo muito rico e com muito a-propósito), além de tirar-mos a fotografia com o Eduardo Chozas.

Posteriormente despedimo-nos com o firme compromisso de nos voltar-mos a ver na subida de Veleta deste ano.

Enfim, é curioso que depois do massacre a que nos tinham submetido, falássemos de Veleta, onde no ano anterior estive a ponto de me converter num monumento ao ciclista todo roto, mas são as coisas desta nossa “doença”, que quando as tentas contar a alguém, que nunca foi picado pelo bichinho, olham-te como se fosses doutra galáxia, ou tivesses levado uma pancada na cabeça.

Bom, espero que estas minhas reflexões tenham sido do vosso interesse. Um abraço companheiros, e até à próxima.

Fernando.

 

publicado por Ubicikrista às 13:02

Olá.

O que segue é a crónica, longa e sincera, da minha participação na VI Clássica Cicloturista Eduardo Chozas (ou Volta Cicloturista a Málaga) e provavelmente contem linguagem torpe e expressões somente adequadas aos adultos. Sirva isto como aviso, no caso de haver crianças na audiência.

Há duas possibilidades:

A - O meu estado de forma e moral, que não era ontem o óptimo, destorceu as sensações que tive sobre a bicicleta.

B - O Clube Ciclista Malaguenho, conjuntamente com o Circuito Cicloturismo a Fondo-Bicisport, não confiavam o suficiente na impecável organização da marcha para atrair as pessoas (todos sabem que as marchas no sul de Espanha têm poucos participantes), e ocultaram-nos o que nos esperava (a ciclomarcha aparece qualificada em todas as partes como de dureza "media").

Se algo houve da opção A, creio que mais terá havido da B, e isso não está bem. E se não, leiam a crónica e julguem vocês mesmos...

O domingo amanheceu bonito, sem demasiado calor, perfeito para a bicicleta. Não entendo como há tão poucos adeptos de ciclismo por aqui, com um clima tão privilegiado. Angel e eu chegámos a Málaga no sábado, e inscrevemo-nos, tendo a oportunidade de conhecer o Juan, do C.C. Malaguenho, que nos sorria muito, mas não nos avisou do que nos esperava. Não vimos nenhum outro malaguenho (da CicloLista) e assim não nos juntámos. Jantar com massa e o típico sono inquieto que precede as marchas (era isso que esta seria, pensava eu, das fáceis).

Assim às 8:30 ali estávamos, prontos para um agradável passeio pelo mais bonito da província de Málaga, depois de uma noite mal dormida e dez dias sem tocar na bicicleta. A saída, atravessando a cidade, era neutralizada e o ritmo convidava à conversa. Alguém se aproxima e me chama pelo nome: claro, o autocolante retrovisor no capacete denuncia-me. É o Fernando, de Granada, e dedicamos um bom bocado a falar enquanto atacamos as primeiras rampas da montanha de León (ou Fuente de La Reina). Os 10 km. neutralizados por dentro de Málaga não contavam para a quilometragem do percurso, tanto assim que esperava uma subida de apenas 5 km. e resultou que...

De seguida, ao deixar para atrás as últimas casas da cidade, aparecem rampas duras, a rondar os 10%, e ponho o meu ritmo, para aquecer. O joelho incomoda-me ligeiramente e a paisagem começa a ser bonita à medida que vamos ganhando altura. Penso que para o alto da montanha não deve faltar muito, e o desnível suaviza-se e assim que subo confortável, entretido com os meus pensamentos. Pelo rabo do olho vejo alguém que se aproxima rapidamente e penso "este enfureceu-se quando o passei e vem-se a mim" mas não,  é o José Ramón, de Salamanca, que vem com outro ciclolistero, e subimos vários quilómetros na conversa. Serviram-me de desculpa para afrouxar o ritmo (ainda que tampouco fosse a subir com muito entusiasmo).

"Porra, esta montanha nunca mais acaba", penso, a ver se avisto o alto e poder fazer um sprint dos que tanto gosto, ao acabar as subidas. Entretanto, ultrapassam-nos dois, com bicicletas bem equipadas e pose "desafiante". Isso é superior às minhas forças, assim,  mudo para a pedaleira grande (a pendente não superaria o 5-6%) e dou-lhes uma ratada das que tanto gosto. Como resultado devo estar quase a chegar...

Seguinte curva, cartão amarelo: "3 km. para o final"! MECAGÜEN![1] Retiro a pedaleira grande e abrando. Neste momento amaldiçou-me por ter deixado o roteiro não sei onde, e por não ter um perfil da montanha como devia. Nos últimos quilómetros volta a haver rampas difíceis, e chego ao cimo sem alento, mas bem quentinho. Enquanto bebo agua e encho o bidão alcançam-me, o José Ramón e Juanma, e começamos a descer juntos, mas primeiro tenho de parar, porque tentar beber sumo pegajoso descendo a 40 ou 50 km/h por uma estrada esburacada é, no mínimo, complicado. O resto da descida faço-a sozinho, enquanto entramos na bonita comarca de Axarquía, terra verde, de pessoas caladas e estradas mal asfaltadas. Num dos buracos, o bidão sai-me disparado, mas por sorte ninguém o pisa e recupero-o sem que haja feridos.

No final da descida, um abastecimento daqueles de encher a tripa. Alguém da organização se empenha em encher-me os bolsos de comida e bebida, enquanto como banana e maçã desalmadamente, como se a minha vida dependesse disso. Chegam o Angel e o Fernando e prosseguimos a rota os três juntos. Faltam 12 km. para o Torcal e a Andaluzia na primavera é uma maravilha, e mais com o estômago cheio, assim sendo, a marcheta torna-se  muito agradável, apesar de uma ou outra subida.

Aí está: o Torcal de Antequera eleva-se sobre os campos verdes. É uma impressionante mola em espiral, e parece que vamos a subir até ao mais alto. Para começar, encontramos as primeiras rampas que sobem até Villanueva de La Concepción, com percentagens, se não por cima, muito perto dos 10%. Aí, cada um vai como pode, e de seguida fico só. Chegado ao povoado, já estou esgotado, apesar de me ter ido reservando, como Ramón me recomendou. Disseram-nos que a subida, de 12 km., chega nalguns sítios a 11%, e ponho-me a imaginar os que já passei, e se os quase 9 km. que faltam serão mais suaves, para poder desfrutar da paisagem girissima.

Já as ruas de Villanueva se empinam como se tivessem pressa por chegar ao céu. Cruzamo-nos com os primeiros que descem, que nos dizem que "já não falta quase nada". Após sair da povoação voltam as rampas muito duras. Aperto-me ao selim, deitado o mais atrás que posso, e forço as costas, com apenas 60 pedaladas por minuto, pedaladas redondas e profundas, esticando bem as pernas para aproveitar cada impulso. Agora começo a sentir calor, mas o ar é seco e o suor não me incomoda. Penso que estas inclinações não podem durar muito, e que noutras ocasiões já passei por pior. Passados uns três km, que se fazem eternos, chego ao tal descanso que tinha prometido a mim mesmo. Alcanço um outro ciclista e comento-lhe o difícil que aquilo é. Responde-me, "Pois o difícil está por chegar! Agora é que te vais cagar todo!" e eu solto-lhe a primeira coisa que me passa pela cabeça, "Pois, mas merda é coisa que já não tenho, caguei-me todo para chegar até aqui". Acha tanta graça ao meu dislate que começa a rir, e rio-me também, com esse riso nervoso que dá a tensão.

Passam os 2 ou 3 quilómetros de terreno plano, demasiado escassos para o que levo em cima, e chego a uma curva à esquerda. Em frente prossegue a estrada, já a descer, mas um tipo da organização diz-me que por alí vai-se para Antequera e que isso não vale.

Encaro o último tramo da subida de pouco mais de 3 km. com duvidas, sem saber o que vou encontrar, depois da sova dos 6 primeiros. Visto isso, não me enganaram os que falavam de 11%, ou o ciclista que me dizia que o mais difícil estava ainda por chegar...

Levanto os olhos e regressa à minha cabeça a Subida aos Lagos de Covadonga. As imagens, do mais difícil da Huessera[2], tal como em câmara lenta, com as pessoas retorcendo-se sobre a bicicleta, de alguns a andar, de alguns sentados ou apoiados muito mal na bicicleta, sobrepõem-se ao que vejo. Não está demasiado calor mas o sol cai a pique, sem deixar sombras na estrada, apoiando-se na vertical e fortíssimo sobre as encostas do Torcal. A inclinação rondará os 10% mas a recta parece não ter fim, e a vista perde-se nos pedregulhos medonhos. Volto a chegar-me para trás, para que o meu peso caia sobre a roda traseira, e pedalo lenta e cansadamente, ganhando metros um a um. Custa-me manter as 50 pedaladas por minuto, que é o meu limite mínimo psicológico para subir, mas penso que aquilo não pode durar muito, e que 3 km. passam depressa. Tenho muitas dificuldades em ultrapassar as pessoas, porque quase todos vão aos esses - de novo, a recordação da Huessera - e além disso estão os carros e os ciclistas, e inclusive um autocarro, que descem, queimando as pastilhas dos travões.

Perdi já a noção do tempo, e chego ao cartaz dos 2 km. para o cimo da montanha. A minha cabeça está vazia, e começa a encher-se de desejos para eu dar meia volta. Tenho vontade de largar a bicicleta e não lhe voltar a tocar durante meses. Alcanço muita gente que vai a pé e penso que vou parar também, para descansar um pouco e poder continuar a pedalar. A andar, só subi uma montanha, foi em Angliru, que é uma coisa especial, mas em qualquer outro ou subo em cima da bicicleta, ou dou meia volta. De vez em quando ponho-me de pé, para relaxar as costas, mas as pernas começam-me a avisar de que não aguentarão muito. Ao passar o cartaz de 1 km. vejo descer o José Ramón, e chamo-o para o saudar, mas faço-o tão baixinho que nem me ouve nem me vê. Começo a notar as ameaças das cãibras nos gémeos, ao fazer força nos pedais e nos quadricípedes ao baixar o pé, e trato de pedalar sentado, apoiando-me nas costas, para descer as pulsações e não forçar tanto as pernas. Há sítios onde o desnível cede um pouco, mas apenas me serve para aliviar. Calculo que me devem faltar 200 ou 300 metros e estou noutra rampa duríssima. Diante de mim, um ciclista que havia subido mais ou menos ao meu ritmo, às vezes à frente e outras atrás de mim, desce-se da bicicleta. Ultrapasso-o e chego ao que parece o cimo da montanha, mas à minha frente há outra encosta, em curva, com uma inclinação que não convida nada a continuar. Levo as pernas no limite da contratura e recordo os Lagos, onde só pelo facto de ir com os da frente me fez prosseguir totalmente cheio de cãibras, e que me custou vários dias de recuperação. Antes de me encher todo de cãibras paro, e relaxo as pernas uns minutos. O ciclista que parou antes de mim, voltou a montar-se na bicicleta e passa-me, animando-me. "Esta tem que ser a última rampa" penso, e volto a montar-me na bicicleta. Poucos metros depois vejo pessoas da organização e o Juan numa mesa com o computador. Gritam o meu dorsal e dizem-me que continue, que não pare. Mas nesse momento, ao relaxar as pernas depois da última rampa, contratura-se toda a perna direita e travo a fundo, deixando-me cair sobre o tubo horizontal e o guiador. Há alguém da organização que se aproxima, mas digo-lhe que estou bem e que só necessito apenas de uns alongamentos. Uns metros mais adiante está o abastecimento. Procuro um sitio onde me sentar e aproveito o óleo que nos haviam dado (uma grande ideia), para massajar a sério as duas pernas.

Quando, daí a pouco, aparecem, primeiro o Fernando e depois o Angel, já me sinto muito melhor, mas ainda muito chateado por ninguém nos ter dito que o Torcal era tão duro. Todos o comparámos aos Lagos, e a nenhum lhe pareceu mais fácil. Para cumulo, ainda faltam mais de 40 km. até Málaga, e tal como nos disse Ramón, não são nada fáceis.

Tiramos umas fotos e descemos até Villanueva, onde nos espera outro magnífico abastecimento. Fico sem vontade de andar de bicicleta, mas não me resta outro remédio senão prosseguir, assim é, que carrego-me de comida (pelo menos, que não chegue a «pássara»[3] física, que a mental já eu tenho). Até Málaga são 40 km. que supõe-se ser de quase outras duas horas a pedalar. Nos 25 primeiros sucedem-se subidas e descidas, e a subida a Venta Patascortas é como uma montanha de segunda, sobretudo pelo facto de irmos todos tocados. Fernando e eu comentamos por que é que cada clube se empenha em organizar a sua Serra da Estrela particular, quando, do que se trata é de desfrutar da bicicleta e não de sofrer como condenados. A cada curva esperamos ver Málaga, mas só encontramos uma nova serra, à qual a bicicleta se agarra como a uma lapa. Por fim, completamos os últimos 15 km. todos eles serra abaixo e chegamos ao Polidesportivo, onde nos espera comida e bebida em abundância, a que lhe demos a devida atenção.

Ainda temos forças para fazer uma foto com Eduardo Chozas, e convidá-lo a visitar o site ciclistas.org e, depois do duche, partimos para Madrid.

Ignoro se voltarei a Málaga, mas certamente que será com outra mentalidade, muito diferente e que me permita desfrutar de uma marcha tão difícil como esta.



[1] Sem tradução literal.

[2] Supostamente a zona mais difícil de Covadonga.

[3] Desfalecimento. Não se anda para a frente, nem para tráse nem para os lados.

publicado por Ubicikrista às 13:01

ABORDAGEM A UMA EXPERIENCIA POR 4 PAÍSES DIFERENTES

(para já só o que está ativado a vermelho)

                Escrito, visando ser publicado como livro, em novembro de 1999

«Recomendo vivamente este livro

- pode ser lido de olhos fechados»

ÍNDICE

PREÂMBULO

INTRODUÇÃO

TRADUÇÃO

1ª PARTE: PREMEDITAÇÃO

OBJECTIVOS

TREINO

2ª PARTE: PARTICIPAÇÃO

CAPITULO 1: MALAGA

INTRODUÇÃO

PERFIL

CRÓNICAS

Faco, Angel, Juan, Fernando

O Inferno do Torcal por Ricardo Costa

RESCALDO

 

CAPITULO 3: PUIGCERDÁ        

INTRODUÇÃO

PERFIL

CRÓNICAS - Crónica poética

RESCALDO

CAPITULO 2: SABIÑÁNIGO

INTRODUÇÃO

PERFIL

CRÓNICAS

Ramon, Javier, Angel,

Miguel, Biciclo

RESCALDO

 

CAPITULO 4: SIERRA NEVADA

INTRODUÇÃO

PERFIL

CRÓNICAS - Faco, Fernando, Ramon, Juan

RESCALDO

3ª PARTE:  ANTEVISÃO

 

INTRODUÇÃO

CAPITULO 1: FICÇÃO

Um domingo,

Um feriado


CAPITULO 3: PORTOS DE MADRID              

Ramon, Faco, Juan

CAPITULO 2: LAGOS DE COVADONGA

Ramon, Faco, Angel, Eugenio, José Ramon, Javier,

David, Fernando, Charly

 

CAPITULO 4: ANGLIRU

Alberto, Antonio, Andrés, Fernando, David

 

CAPITULO 5: PARIS-BREST-PARIS

Brevet 300

Brevet 400

Brevet 600

4ª PARTE: CONCLUSÃO

 

EXTRA: VERSÃO FICCIONADA

 

Personagens

Folgas, Arreatas, Rebocador, Amigo, Gordo

publicado por Ubicikrista às 12:00

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