25 de Fevereiro de 2013

Às vezes há que dar o nome aos bois, pese este ser um local onde se procura dar destaque aos que se fazem notar por outras razões que não as dos que chegam primeiro ou andam mais que outros. Para isso existem as pautas classificativas das competições. As outras razões aqui válidas são o companheirismo ou aptidões em prol do grupo, seja na organização de provas, de notícias positivas ou de quem simplesmente empresta duas camaras de ar ou finalmente a quem começa uma recuperação de um treino mais cedo para fazer companhia a um ciclista que se atrasou.

publicado por Ubicikrista às 02:56

01 de Outubro de 2009

Quando me dopei pela primeira vez? Quando era amador não fazia estes tratamentos, como amador eu não me dopei. Bom, cafeínas sim tomei, Não me nego em dizer que não tomei cafeínas. Mas este assunto agora é outra coisa.

Nas categorias de amador terminei um Campeonato de Espanha... e se Deus quiser, uma pessoa que já está debaixo da terra, pudesse levantar a cabeça (refere-se a Chava Jiménez), ela poderia contar para onde é que eu fui depois da corrida. E está lá escrito que eu passei num controle. Se tivesse que cortar um braço ou uma perna para que essa pessoa pudesse estar aqui no mundo, fá-lo-ia.

Amador: “Aí não cheguei a provar EPO, nem as hormonas...”

Naquele Campeonato de Espanha, em Córdova na subida ao Cerro Muriano, fiquei em segundo, atrás de um corredor basco. Nesse dia passei num controle da federação e depois levaram-me pra um hotel, onde estava uma equipa de profissionais, de quem não te vou a dizer os nomes. Não é a mesma equipa onde corri. Mediram-me os valores do sangue e esse médico que diga, se se considerar atingido, ele que diga os valores de sangue que eu dei. Não chegava nem aos 40 de hematócrito. E com esse nível fiz segundo.

Não como na última Volta a Espanha, quando algum hipócrita dizia que eu tinha 50 de hematócrito. Não tinha nem 48! Tinha 46 e meio e numa veia 47. Isso não são os 50. Não é o mesmo que um carro te custe cinco milhões ou que te custe nove. São três milhões de diferença.

Como amador não provei EPO, nem a hormona de crescimento... !Jamais. Jamais...! Dizem-me que essa categoria agora está podre, mas isso eu não sei. Na minha época, quando eu lá andava, não estava. Tenho que dizer, e digo-o sinceramente, que eu, antes de ser amador, alguma vez na vida, jamais, jamais, tivesse tomado recuperadores. E foi na categoria de amador que me comecei a recuperar. Quer dizer, com soros, com qualquer soro glucosado, eu mesmo punha duas seringas de 20. Isto como amador. Eu não escondo nada. Não sou um cobarde. Se alguém se sente indignado, que salte cá para fora e fale.

Ultimamente já parei para pensar nos efeitos secundários da dopagem e claro que pensei deixar o ciclismo. Eu entrei neste desporto com a maior ilusão do mundo, porque marquei uma meta e trabalhei para ganhar dinheiro ou para chegar a ser alguém. Não creio que tivesse sido tão mau como amador, quando ganhei a Volta à Extremadura, fiz segundo num Campeonato de Espanha, terceiro na Volta a Sevilha... e só corri seis meses nessa categoria.

Cada um de nós marca as metas que quer alcançar. Com ilusão e ambição ganha-se tudo. Entras numa dinâmica que não te vou mentir. No primeiro ano foi tudo cor-de-rosa. No segundo ano começas a ver as rosas, mas sem as pétalas, e no terceiro ano já notas os espinhos. Tens que enfrentar coisas que vês que estão ali mesmo.

Eu comecei a ver coisas porque, claro, todo isto tem efeitos secundários. Diz-se da hormona de crescimento que se tens uma enfermidade é como se a estimulasses para que a tivesses antes de tempo. Tudo tem efeitos secundários. O tabaco. Se fumas um cigarro, não te acontece nada, mas se fumas todos os dias dois maços, vai-te acontecer.

Ultimamente tenho pensado que morrerei antes dos 50 anos. Dás-te conta de que estiveste a brincar com produtos que atraem as doenças antes de tempo. Eu trabalho para ganhar dinheiro. É suposto que cada um trabalhe para que lhe paguem e para tentar ganhar mais dinheiro. Se eu morrer, pelo menos que a minha família fique bem.

Pressão profissional: “Se não andas, vais para a rua. Então tomas...”

Isto é uma pescada de rabo na boca. Se não andas, vais para a puta da rua, ou aceitas ou deixas. É claro que se poderia correr sem dopingue, mas um ciclista não poderia fazer o Tour e a Vuelta, por exemplo. Haveria coisas que não se poderiam fazer, porque estarias no limite. Recuperar-te-ias pouco a pouco, mas se o ferro te baixar, como é que te recuperas?

Poder-se-ia correr, por exemplo, se as etapas de 200 quilómetros descessem para 140. E os ciclistas dariam mais espetáculo. Mas como nesta vida tudo se move por dinheiro... Quando vês que andaste em determinados sítios, que fizeste o teu trabalho, e para quê? Para que te paguem dois milhões de pesetas? Se eu cair de um andaime, azar é porque caí, mas aí ninguém me está a matar.

Mas porque é que não o dizemos? Tu já viste algum ciclista que tenha uma profissão? Quantos há no pelotão? Eu conheço dois ou três, muito poucos, porque a bicicleta obriga-te a treinar muitas horas. Tens que trabalhar todos os dias cinco horas, e vais deixar isto agora, depois de toda a puta de uma vida?

O seu futuro: “O corpo ressente-se do dopingue”

Não interessa se abandono ou não. Continuo e dizer, que fique claro, que não acuso companheiros meus. Falo de mim. Mas, como já disse ontem no anterior artigo, sabes como isto deveria acabar? Sancionando também o médico e o diretor.

Claro que pensei em deixar isto. Se tiver que comer em vez de duas costeletas uma, pois que se lixe, mas faço-o. Já pensei. Para quê? Para ganhar oito milhões de pesetas sem saber se chegarei aos 50 anos? Não sei mesmo se lá chegarei, porque creio que o corpo se ressente. Um rim já o acusa.

E já que estamos a falar de recuperadores, de protetores hepáticos, o S’Amet, o tal que se vende nas farmácias, e que dia sim, dia não tens que o meter. Isto está permitido e serve para nos proteger, mas quem anda a pôr ladrilhos não tem que pôr isto? Isto é-nos dado para as drogas, então isto também são drogas. Não o pó branco, que alguns dizem por aí que eu o trafico. Drogas há muitas...

Obrigam-me a dopar-me? É uma pregunta difícil de responder. Mas eu não me escondo. Insisto que esta é a pescada de rabo na boca. Tu passas para o ciclismo profissional com toda a ilusão do mundo, crendo que vais construir o teu futuro e quanto mais andares, mais ganhas. Chega o médico e diz-te: Vamos-te dar isto. Se tu dizes que não, ficas marcado para o próximo ano.

A ACP: “Como é que me defende a minha associação?”

E porque é que a ACP (Associação de Ciclistas Profissionais) não faz nada? Não tenho resposta. Creio que a ACP existe para apoiar o ciclista. A mim fizeram-me chegar uma mensagem, através de um número de telefone, em que me diziam que estavam a fazer um pacto de silêncio. Não foram exatamente estas palavras, mas mais ou menos. Depois todos vimos por aí o que dizia o comunicado assinado por todo o pelotão.

O ciclismo é a galinha dos ovos de ouro, mas isto tem que acabar. Se tiver que ir a um julgamento, irei a um julgamento; se tiver que ir a tribunal, terei que ir a tribunal. Tenho que ser sancionado porque não me pagam, porque me fizeram dopar-me, porque isto é a tal pescada de rabo na boca, porque se tu não andas vais para a puta da rua e então tens que tomar isto?

No meu primeiro ano de profissional não me ofereceram nada, mas no segundo ano já ofereceram. Eu pago por ser socio da ACP, 600 euros por ano, pago a licença federativa do meu bolso, pago uns 10 por cento dos prémios aos auxiliares da equipa, que o merecem, porque são pessoas trabalhadoras. Então, onde é que a minha associação me defende? Aqui, tal e qual, também há que abrir uma porta de investigação.

O despedimento ocorreu na antepenúltima etapa da passada Vuelta, quando dormimos em Villalba. Em todas as etapas ia-me atrasando de tanta cortisona que já levava em cima do joelho. Estávamos na zona onde moro, logo, tinha que continuar ou rebentar. Então diziam-me: “Pareces recuperado”. E eu respondia que não, porque ainda me doía.

O despedimento “Acusam-me de ter sexo e de me automedicar”

Meti-me numa fuga. Perto de Torrelodones iam-me a dar picadas, mas que desapareciam. Cheguei a Leones. Mandaram-me parar, com tanta sorte que até estava com problemas nos auriculares. E eu ali parado. E os do carro da equipa: “Por Deus, porque é que tu não respondes”. E lá ia dizendo que estava parado. Querem que fique aqui parado na berma da estrada ou que dê a volta em direção contrária?

Depois de chegar, saí para tomar uma coca-cola com um amigo e outra pessoa. Telefona-me uma amiga a dizer que me vem ver. Estivemos a tomar qualquer coisa e foi jantar. Depois de jantar mediram-me e tinha 46 com uma pessoa e com a outra 47 de hematócrito. Depois subi para o quarto e fiquei a conversar com a minha amiga.

Tocam à porta e digo: “Entre!”. A moça não se escondeu, porque não estávamos a ter sexo. Abro. “Podemos falar?”. E o diretor, acompanhado do manager, disse-me: “Tu amanhã não sais, porque não estou a gostar nada do teu comportamento. Mas, como é que podes crer que estarás nos 50”. Digo-lhes que iria estar nos 50, porque duas pessoas já me tinham medido.

Pensariam eles que me estava automedicando. Ma s porque é que me vou eu a estar automedicando! Se agora não há EPO da que não dá positivo. Indisciplina, foi isto que contei ao AS. Os anteriores desentendimentos com o diretor tinham sido por culpa de outras negligencias médicas.

É então que me expulsa. Digo-lhe que terá que me pagar os gastos. Responde-me que não tem dinheiro. Replico: “Esse não é problema meu”. No dia seguinte não saí. Às três da tarde expulsam-me do quarto. Desço e vejo o manager ali que estava detido. Levo um papel com todas as despesas de 2002 e princípios de 2003. Faço uma lista. Disse-me: Tenho um problema, fiquei com o manager mas tenho que ir. Podes assinar aqui e amanha ao jantar dou-te o recibo”. Mas no dia seguinte não me deram nada.

O dinheiro já me o pagaram, mas esse papel em branco que assinei acabou por ser utilizado para a minha carta de despedimento feita à mão. Nem DNI de um, nem de outro, nem de nada. A partir daí reclamam umas despesas do princípio do ano, do Hotel Patilla. Descontam-mo da lista. De uma lista de 2.900 euros fiquei apenas com 800. E tenho por aqui o recibo a justificar.

Drogas: “Do Prozac às drogas vai um passo”

Depois disso chegou um fax onde dizia que me retinham o pagamento de dezembro porque não havia devolvido as bicicletas. Depois enviei-las. Já lá estão, mas e eu recebi o salário? Aqui não diz que está pago o salario. Já foi tudo enviado. Agora denunciei-os. Devem-me ainda o mês de dezembro.

Eu tenho um contrato até 31 de dezembro de 2004 por dez milhões de pesetas. Pois bem, telefono para me fazerem a carta de despedimento. E nada. Telefono para a gestora. Disseram-me que a fariam. Saio de Ávila para Alicante com um amigo de carro, a 220 à hora. Chego e peço a alguém uma cópia do contrato original e dá-me esta carta manuscrita donde diz que acabou em 2003. E o fulano disse-me: “Mas esta carta não a escreveste tu?”. e respondo: “Não, não...Esta é a minha assinatura, mas esta carta não fui eu que a escrevi”. Esta é pois a carta de despedimento que me deram. E depois dizem que é por mútuo acordo.

Depois disseram que eu teria um clube de alterne, oxalá. Depois acusaram-me de narcotráfico. Eu não sou um camelo carregador de pó branco, como me chamou um diretor quando telefonou para a minha casa. Isto é muito grave. Se assim fosse teria sete carros, sete casas e não viveria num apartamento alugado. Eu não tomei cocaína. Só experimentei um charro quando andava a estudar no Instituto e chegou-me tanta fome que comprei uma Pepsi e um pacote de gomas. Nunca mais.

Uma coisa são as drogas e outra a dopagem. Isto não quer dizer que um corredor seja um drogado dependente da cocaína por causa do ciclismo. Mas já será se te envolveres noutras coisas como os antidepressivos, o Prozac. Isto estimula-te. Se tomas antidepressivos, tomas duas pastilhas por dia e ficas com uma moca do caraças.

O Prozac é uma coisa que se tomares duas pastilhas diárias, andas eufórico. Por isso quando deixas de tomar, crias uma dependência. Isto não dá positivo. A pastilha da felicidade, é assim que ouvi dizer por ai que lhe chamam. Duas ou três pastilhas por dia. Porque o corpo já se encontra derrotado. Não dormes. Tantos dias, tanta pressão, muito stresse. Pela manhã, pequeno-almoço, isto, autocarro, ou aquilo, corrida, duche, massagem, jantar, mais daquilo, são muitas coisas já... Recorre-se ao Prozac, ou à Floxetina, que são medicamentos que realmente provocam dependência.

Sobre isto não te vou mentir, porque estás na maior, falando depressa e bem. Eu tomava-os para as corridas, para as épocas, e depois do Tour fiquei num estado fastidioso. Fui ao médico de família porque estava desanimado. Receitou-me Prozac. Quando estava desanimado, depressivo, tomava sempre o Proza. Tenho receitas e justificações do médico. Daqui às drogas vai um passo. Não pode vir uma pessoa qualquer sem mais nem menos e acusar-me a mim de que sou um camelo do pó branco. Isso é muito forte.

publicado por Ubicikrista às 19:50

"A cortisona destruiu-me o joelho”

Tive uma lesão no joelho há cinco anos e passei pelo bloco operatório. Sofria de uma condropatía rotuliana e tiveram que me soltar a rótula esquerda, ainda que nunca mais me tinha dado problemas.

De facto, a tendinite que tinha ficava por detrás do joelho. Então, eu na Volta à Espanha 2003, no primeiro dia fiquei para trás. Tive também um confronto com o diretor, que me disse que eu me atrasara porque me apeteceu e que me estava a rir dos meus companheiros. Isto deu-se em Gijón, no dia do contrarrelógio. Eu descolei numa pequena subida pouco depois da partida devido ao joelho e por mais coisas que não veem ao caso.

Vuelta 2003: “Infiltravam-me quase todos os dias”

Usavam a cortisona, cortisona, cortisona... para a minha lesão no joelho. Dia sim, dia não, dia sim, dia também, dia sim, dia não, quase todos os dias era infiltrado.

Comecei a infiltrar-me no início da Vuelta porque estava chateado. Chegou um fulano que não tinha nada a ver com a equipa e também ele me infiltrou. Era amigo do diretor. E infiltrou-me até no dia seguinte no carro porque ainda me doía.

A etapa saía de Andorra e chegava a Barcelona. Recordo-me que durante a corrida ia a falar com um corredor, que ia ser visto por um médico de Barcelona por um problema no joelho que ele também tinha. Mas disseram-me que não se me ocorresse sequer ir a esse médico. E eu que pagava do meu bolso, eh! Então mal cheguei ao hotel continuaram-me a infiltrar, infiltrar... Pensei que na etapa do Cerro Muriano ia morrer de dor. Todavia diziam-me que era mentira minha. Pensava que este porto, da etapa de Córdova, não o subiria.

Um corredor que esteja bem não creio que tenha que se estar a infiltrar sempre durante uma Volta a Espanha, porque depois vejam a cova com que fiquei no joelho (mostra-a ao fotógrafo Jesus Rubio).

Agora, com isto tudo, terei que passar por vários médicos. Para já tiraram-me a bicicleta, mandaram-me um faxe a pedirem-me a bicicleta da equipa. Tive que pedir uma bicicleta a uma pessoa que tem uma equipa amadoura, e que em tempos foi profissional, e que me emprestou uma. Não me cobrou nem um cêntimo. Tenho que deixar aqui o meu agradecimento.

Recomecei a montar a na bici e sabe-se que se eu tenho às vezes uma bolsa de líquido no joelho é porque o tenho afetado, porque nasce-me uma bola, e fico com um hematoma que desce até ao gémeo. Considero que tenho todos estes problemas devido a um tratamento excessivo.

Creio que um desportista de elite, como ocorre com os futebolistas que têm recaídas devido a uma lesão, não os infiltram a toda a hora, porque os mandam parar. Mas claro, como eu tinha toda a pressão que tinha durante todo o ano, com todas as broncas em cima durante a temporada, pois assim que se passou o que passou.

Alguns podem pensar que foi tudo por minha culpa! Como posso eu saber como se infiltra um joelho, com todos os tendões que lá tem! Com tantas outras coisas num joelho. Isso tem que ser feito por um traumatologista ou uma pessoa que saiba o que tem que infiltrar e aonde. Como vou eu andar a infiltrar-me numa perna por detrás, quando tens que estar relaxado.

A minha tendinite começou por detrás e depois, de tanto forçar, passou-se-me para a frente e vejam como tenho o joelho (volta a mostrar). Não me retirei, porque diz-se que eu não nunca acabei nenhuma grande prova, que eu me ficava a rir dos companheiros e de todos. Pois, repara, como se houvesse razão para me retirar. A pressão que um corredor tem, não o sabe a Imprensa. E as broncas que um corredor sofre, também a impressa não sabe..

Boletim de saúde: “Onde o médico anota o tratamento”

Estes tratamentos de cortisona não os podes fazer se não estiverem assinalados no boletim de saúde. E já falei deles no capítulo três. Por falar nisso, queria voltar a explicar uma coisa que igualmente não ficou bem esclarecida. Eu estava um dia em reunião num sítio e uma pessoa disse-me: “Tu, chavalo, só tens estes produtos marcados no boletim?”. Referia-se por eu ter lá poucos escritos.

Pois que dizer, pois sim. O produto quem te o dá é o médico. Resulta que isso tem que estar prescrito no boletim de saúde e assinado por um médico. E eu disse-lhe: “Pois claro que sim. Tu, o que é que queres que eu tenha? Que queres que eu tenha? Eu tomo o que me dão”. Não tomava nada mais. Quero que isto fique claro.

Transfusão de sangue: “Pedem-me para recorrer à minha namorada”

As transfusões não se utilizam em voltas pequenas, para que conste. Funcionam assim. Tratas do teu sangue com um medicamento que é a EPO. Sobes até valores acima dos 50, eu cheguei aos 56. O que mais tomates tiver, o que mais arriscar, é o que mais sobe. O que acontece é que depois, quando já tiveres subido o teu hematócrito, entras num ciclo, desde que te meteste a última dose de EPO, para que esse sangue se limpe. Passa-se a treinar menos para que não te desçam os valores e metes-te muito volume de treino, entre 100 ou 150 quilómetros,

Páras quinze dias antes da grande corrida. Então extraem-se dois sacos de meio litro cada um. Depois espera-se que passes no controle prévio de uma grande volta por etapas, ainda que no meu caso, no último Tour não se fez assim. Automaticamente, nessa mesma noite, poe-se o primeiro saco. O sangue desse saco desce-te três pontos. E o segundo saco faz-te baixar também outros três pontos. De todas as formas, nos dias antes do Tour pões albumina e soro para fazeres baixar o hematócrito de modo a que a UCI não suspeite das equipas.

O seguinte saco será usado durante a corrida, quando apanhares uma quebra de forma e passas de teres tido 48 ou 50 de hematócrito, a teres só 44. É então que te poem o próximo saco. Poem-to no nono ou décimos dias da prova. Ao pores meio litro mais de sangue, notas pressão na cabeça, dores em varias partes do corpo, inchaço, pesadez, sentes-te pesado como uma bola... mas depois, fazendo rolo vais suando e eliminando a água e permanecem os hematíes.

As transfusões bem-feitas devem fazer-se em centros especializados. Tem que estar a uma certa temperatura. Para meteres um litro de sangue demoras mais de meia hora, mas para o tirares, muito pouco. No dia seguinte de o tirares não se treina, não podes fazer esforços, não te podes sequer mover.

Ultimamente ouviu-se falar em utilizar outras pessoas para as transfusões de sangue. Repara, eu não o fiz, mas na vida há que ser sincero e não batoteiro. A mim ofereceram-mo. Eu não tenho que por a vida da minha mãe, dos  meus familiares nem da minha namorada em perigo. A mim ofereceram-mo, porque o corredor quando está nas corridas não pode andar com os ditos produtos como a EPO. Terias que enriquecer o sangue dessa pessoa e depois extrair-lho, mas não sem antes fazer prova de RH.

Ofereceram-mo na presença minha namorada, Marina, e com pessoas por perto. Perguntaram-me se haveria algum familiar que tivesse o mesmo grupo sanguíneo que o meu. Se eu fosse médico, a alguns metia-lhos pelo cu acima. Que o juiz assuma e que apanhe e corte as cabeças de quem seja...

Estou a pôr demasiado em perigo a minha vida. Com toda a merda que há, todos os hipócritas disfarçando... eu não vou dizer se os outros o fizeram. Não dou nomes, só me estou a acusar a mim, nada mais que a mim. Nem a desportistas, nem a ex. companheiros, nem equipas... Que fique bem claro nesta conversa, que eu não culpo ninguém, perceberam?

Tens que te dar conta que quando estas carregando, o problema está em que tens que ter um grande controle. A equipa tem quatro ou cinco máquinas (centrifugadoras), porque se não as tiver vais ter que ir todos os dias a uma farmácia. E o que é que te vão dizer quando entres um dia na farmácia e estejas com valores de 50 de hematócrito e noutros lhes apareça 56?

Então, não posso estar a ir todos os dias um laboratório para me tirarem sangue. Dá-te conta que te estás a por 4.000 unidades (de EPO), 4.000 unidades, 4.000 unidades, 2.000 unidades, 2.000 unidades, e isso sobe, mas há que controlar-lho, porque é sabido que já houve 14 mortes.

EPO: “Até duas vezes quando treinas”

Podes picar-te dez, doze, treze vezes, catorze vezes por dia, quinze vezes por dia... Sim, há dias em que te picas quatro vezes para fazeres a medição, porque se estás alto, se tens uns valores altos, desde já te digo que terias que te medires, porque isto é muito complicado.

Insisto em que eu não posso estar a ir ao laboratório para me medir e tal, porque eu agora estou nos 50 e se passar para 56, não é? Porque as pessoas vão dizer o que se passa, não é? O que se passaria se numa farmácia ou num laboratório te virem nos 45 e no momento seguinte, trás, 56. E subiu dez pontos! Isto não sobe porque só fumas sete maços de tabaco diário, não é?

Então há dias em que metes o hematócrito quatro vezes. Bom, uma fazes-lha mal acabes de te levantar; outra depois de teres ido treinar, outra a meio da tarde e outra à noite.

Depois, se nesse dia te calha EPO, pois que seja EPO também, se noutro dia te calha... isto podes tu por... se tens que subir com um tratamento muito rápido, pois então ponha-se um tratamento, poem-se oito miligramas na veia por dia em duas vezes. Quatro são depois do treino. Não antes, porque podes ficar com tonteiras ou o que seja. E depois outros quatro já durante a noite, se tiveres que o fazer subir antes e rapidamente, percebes? Ou seja, é muito complicado...

De momento já temos quatro picadas com a centrifugadora e dois de EPO, seis no total. E depois se te calha a hormona de crescimento... isto só se faz depois do treino, porque estes medicamentos podem-te deixar mareado ou podem-te causar problemas. E claro, vão sete picadas, não e?

Mais o ácido fólico, a vitamina B-12 e o Ferlisit, que é ferro. Isto tudo, tu próprio o aplicas enquanto estás a meter sangue. Este é um tratamento de ferro e ácido fólico para que melhor o assimiles. E, claro que tens que o meter. É o que combina um tratamento de EPO. Não acredites que não tenha coisa...

Soro, aspirinas...: “Evitar uma paragem cardíaca”

E depois tens que pôr mais. Se estás muito alto, muito alto, muito alto, pois terias que meter soro. Isto faz-se durante a noite. Também se tomam aspirinas ou o que seja, porque uma pessoa com cinquenta e pico de hematócrito, tens que te orientar...

No passado chegaram a morrer ciclistas holandeses por isto, pode dar-te uma paragem cardíaca. Porque as pulsações de uma pessoa, com um tratamento, quanto te baixaria... baixaria um porradão, ficar-te-iam nas 36, 37 pulsações quando estiveres de noite relaxado na cama. Quando tiveres tomado muito e estejas com um valor alto, paciência, tens que te aguentar.

Então, para fazer baixar isso toma-se um soro glucosado, que costuma ser o Hemoce, para que não te deixe muito à rasca. Mal o poes desce-te quatro ou cinco pontos. Tomas duas aspirinas e já está.

E ainda pode haver algum dia que tenhas que pôr cortisona, o HMG, que é uma hormona masculina para compensar a testosterona com a epitestosterona, ou tens que por algum cofactor, como o Geref, Neofertin, coisas dessas, que são tratamentos caros dos que já se falou aqui nos capítulos anteriores.

Quer dizer, no total podem ser doze ou treze picadelas num dia. Não em todos, claro. Mas depois tomas um relaxante muscular ou coisas parecidas.

Um tratamento bom é o de mês e meio antes, porque tens que o deixar de tomar quinze dias antes da competição, mesmo que um outro companheiro dissesse recentemente que eram três dias, mas têm que ser quinze, porque se não repara no que se passou (no Tour).

Na primeira picada: “Suei de medo como um frango no espeto”

Eu, em pequeno, recordo-me de uma ajudante de enfermeira que me pregou uma chapada porque não deixava que me tirassem sangue. Pumba! À frente da minha mãe. Com quatro anos ou por aí. Tinha pânico às seringas. Afinal acabas por teres que as usar em casa por muito menos.

De início para pôr coisas ia a casa de uma pessoa, era ela quem me picava lá na minha terra (Zarzalejo). A pessoa em causa era médica e dizia-me: “Quem te manda isto? E isto? E aquilo?”. E depois, claro, a partir daí teria que ser eu a meter, não sei... mas se não te picas, vais de patins no dia seguinte.

A primeira vez que me piquei, recordo-me que me enfiei numa casa de banho para meter o HMG. Porque a centrifugadora do hematócrito só a tenho desde há dois anos. Porque ganhando 200.000 pesetas não a podia comprar. Como poderia eu comprar uma centrifugadora que custa 300.000 pesetas! Tinha primeiro que poupar, não é?

Recordo-me que nesse dia me meti numa casa de banho e caíam-me pingos de suor, só de ver, e fechei os olhos. Dizem que o rabo se divide em quatro partes e começas a contar a primeira de baixo, na nalga de baixo. Piquei-me no lado direito e digo-te a verdade, suava de medo como um frango no espeto. Até que lá me consegui picar bastante incomodado. Mas depois lá te habituas, ultimamente...

O HMG pica-se no rabo e vai para o músculo. O que tens que fazer é tirar o êmbolo (da seringa) para ver se picaste alguma veia e se não saí sangue, metias o HMG, mas se saía, tinhas que voltar a picar. Claro que com estes produtos não podes ir a um médico de família para que te piquem, porque automaticamente fazem-te perguntas. Quem te receitou isto? E vão-se à pessoa.

A minha companheira, Marina, disse-me que se soubesse que um ciclista tinha que se picar tantas vezes, ela teria preferido que eu jamais fosse ciclista. Que isto era uma vergonha, foi o que ela me disse.

Depois vem o tema da recuperação. Todos os dias o médico tem a tua recuperação preparada, tem Esafosfina, Tationil, S’Amet, mas nunca sabes o que é, porque nunca abre o produto à tua frente. Sei o que é Esafosfina, porque arde muito quando te o poem na veia. Sentes um ardor que à s vezes dizes: Tira-me isso!

Onde picar? “Nos cotovelos, mãos, pernas...”

Picas-te em vários sítios. Porque temos que nos picar em todos os dias de recuperação, picar-se para mais coisas... no rabo, não tenho carne, porque a trago comida; acontece-me o mesmo que no joelho, o que se passa é que como é osso não dói, não é? Então acabas por te picar nos cotovelos, nas veias dos cotovelos, nas mãos, nas veias das costas das mãos e ultimamente, quando já estás tão magro, acabas por te picares até nas pernas.

Dói-te tudo e ficas com contusões, contusões, contusões... Mesmo um médico não tem uma fiabilidade de cem por cento, então um ciclista... eu o ano passado ponha em mim mesmo o recuperante, este ano poem-no os médicos. Não tens confiança nenhuma se apanhas a veia e tens que te voltar a picar. Imagina, já são duas picadas, e são 21 dias. Mesmo que só fossem duas picadas diárias, quantas seriam?

Se nos obcecarmos bem nas corridas, lá vêm as picadas. Algumas vezes temos que levar manguitos por isso mesmo. Ao picares-te ficas com uma contusão e tens que sair com os manguitos, mesmo que depois os tires. Mas claro que os jornalistas se apercebem, às vezes vêem-se as contusões. Repara nos cotovelos... Repara nas costas das mãos... Vêem-se, vêem-se...

Insulina: “Combina com outros produtos”

Falando de picadas, ainda não contei nada da insulina. A I3 é insulina. A marca não sei, mas pode-se ver neste plano de medicação (mostra um documento que não reproduziremos nestas páginas), que está escrito à mão e pode-se fazer com ele uma peritagem à caligrafia.

Isto mete-se depois dos treinos duros. Eu não sei para o que é se utiliza, porque é uma coisa que, falando verdade, nem cheguei a meter ainda isso, nunca a usei. Eu não sou diabético. Um diabético tem que pôr insulina, não é? Como está aí escrito como fazem os médicos. Eu tenho uma pessoa na família que é diabética e tem que usar insulina.

Realmente, neste caso não sei que função tem. Como podes ver no plano de medicamentos, aqui está I3. Como também está o HM, como se vêm os asteriscos, como se vêm símbolos e como se vêm muitas coisas mais.

Usa-se quando se está em plena forma e utiliza-se com produtos derivados do tratamento que combine. Dá-te conta que se fazia uma marca ali de acordo com os treinos duros. Tinha acabado um treino e não sei se foi o médico que comentou que se tinha que utilizar quatro linhas de insulina. Uma seringa de insulina, que fique  claro.

A insulina vem num frasco da mesma cor de um barril de cerveja, uma cor assim. O vidro é igual, vem com uma chapa por cima e com uma cola de borracha. Não me recordo do nome, a cola de borracha cheira tão mal que empesta. Cheira a planta química qualquer, sei lá eu.

Tu mete-lo quando chegas de um treino. Dã-te conta que estamos no plano de treinos duros. Quer dizer, que eu chegava a casa, tomava banho e colocava-o como o médico me ensinava. Este é um tema que não é meu, isso é de um médico e sim tiver tomates que saltem e desmintam. Há um médico que eu não referi e acontece que  apareceu por aí. Se esse médico se sente culpado no meio disto.

publicado por Ubicikrista às 19:45

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